Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

CARTA DE MOÇAMBIQUE PARA A REVISTA << VIDA NUEVA >>

4. DOCUMENTOS

UM SACERDOTE ESCREVE SOBRE A ANGUSTIANTE SITUAÇÃO DA BEIRA, BARBÁRIE, SADISMO, GUERRA SANTA? --PERGUNTA-SE.

<< Com esta carta envio-lhe um pequeno artigo sobre a situação um tanto angustiante em que se encontra parte deste território africano. Não vou der-lhe muita explicações porque no artigo fica tudo dito. Esta minha atitude é antes de mais nada questão de consciência. Creio ser esta a maneira de encarnar e de me comprometer com o povo; defendendo esta gente, denunciando o erro e a injustiça onde existirem. É a mística da <<não-violência activa>>. Sei a que consequências me exponho. Não me importo. Uma carta mais forte, crua e polémica que este artigo chegou ao chefe do Governo, Marcelo Caetano, ao Ministro do Ultramar e ao Governador da Beira. Com este último tive uma entrevista de uma hora e um quarto. Sei que estou na lista negra como a maioria dos meus companheiros. Mas creio que chegou a hora de não calar e por isso a escrevo >>

Estas palavras  -- que tirámos da carta -- são a melhor apresentação para este impressionante documento que recolhemos. Duvidamos se haveríamos de publicá-lo com a assinatura e os nomes do seu autor e informadores. Mas assim no-lo pedem e assim o fazemos

<< Recordo uma série de artigos numa das muitas revistas missionárias que, válida ou duvidosamente -- não interessa para o caso -- vão mantendo em muitos espíritos um canto ao menos sentimentalóide, pela causa das Missões.
Todas as aventuras e peripécias da referida série tinham lugar num ponto desconhecido durante muitos anos, no mapa de Moçambique. Esse lugar era Mucumbura e o título da série <<MUCUMBURA DIA A DIA>>. 
Passaram os anos e aquele Mucumbura que timidamente pedia licença para falar dos seus problemas de catecúmenos e doentes, de padres e campanários; aquele Mocumbura que se contentava com os tostões que faziam repetir os milagres dos anos 30 na Palestina; aquele Mucumbura que via as suas exigências satisfeitas ao saber que já era conhecido fora das suas latitudes; aquele Mocumbura, agora, grita ao som do seu <<tan-tan>>e das metralhadores que soam a morte.~

Padre Enrique Ferrando Piedra
RELATOS HORROROSOS -- << Grita para que todos oiçam, pois têm de se ouvir, tanto os que o conheciam então, como os que agora o conhecem pela primeira vez. Gritos perdidos no anonimato da selva, enterrados nos relatos horrorosos que lá nos chegam, feitos por homens de boa vontade, mas com a intuição de que algum dia a História os colocará bem alto para que em toda a redondeza da terra continuem a ressoar os <<tans-tans>> de Mandué, Deveteve, Buxo e Chiteng. E acontece que Mucumbua pode invocar os seus deuses ancestrais para que rebentem contra as rochas os filhos dos seus inimigos. Ao fim e ao cabo não faria nem mais nem menos do que têm feito com os seus.
Para quem há anos conheceu Mucumbura, para quem percorreu os seus caminhos, para quem foi perdendo uma a uma as suas ilusões juvenis por cada parcela doméstica, por cada palhota e em cada povoação, para esse, o grito dos seus habitantes torturados e mortos cria-lhe uma exigência de expiação ou vingança, um sentimento estranho, meio soldado meio monge. Não me pergunteis como concretizar esse mal-estar que racionalmente foge à violência, mas que simultaneamente se esforça por não se deixar iludir com ternas palavras de perdão. E acontece que em Mucumbura os esbirros <<sabm o que fazem>>. Sabem que um rio de terror e de medo, é o melhor método para despojar o peixe da sua água, do seu natural, <<modus vivendi>>

ANO DE 1971 --  Primeiros sinais dos Movimentos de Libertação naquela região de Mucumbura. A história dos povos não perdoa este recanto do Glorioso Império Português Como titans, uns se empenham em não soltar a presa e outros em arrebatá-la. E daqui vem a tragédia. O Movimento de Libertação assenta os seus arraiais em Mucumbura. Segundo a sua mística militar respeitam os civis e só atacam os militares. A luta intensifica-se.

CHORAM MUITOS HOMENS -- << É então que as forças portuguesas recorrem a medidas que fazem chorar muitos homens maduros e salpicar e sangue a própria Missão de Mucumbura. Aquela gente alegre já não ri. Já não passam em colectiva algazarra saudando com o seu genuíno <<Kaziwai Baba>>. Os caminhos ficam desertos. O pó branco dos caminhos domésticos nas povoações transforma-se em cinza parda e cinzenta das palhotas queimadas>>.
Desde Maio que a tropa portuguesa tem vindo a fazer massacres em massa perante o avanço da FRELIMO. Estes massacres não são mais que uma vingança em gente inocente pelo simples facto de ser negra. Um autêntico genocídio. O meu único grito é este: denunciar os responsáveis que permitem semelhantes selvajarias realizadas pelas forças militares de um Estado que se proclama cristão e que recebeu a Rosa de Ouro do Vaticano.
<<Tenho diante de mim os quatro relatos que o nosso companheiro Alfonso Valverde nos mandou. A sua presença em cima da minha mesa queima, e, para apagar este fogo, vejo-me obrigado a escrever estas linhas. Tentarei resumir o mais fielmente possível o que neles está escrito.
<<Entre o dia 4 e 7 de Maio o primeiro massacre: Matam 26 pessoas inocentes. Abre a lista Aroni...>> que depois de ter negado estar em contacto com a FRELIMO foi morto com três tiros na cabeça. Estes dias os meus companheiros Alfonso e Martin dedicaram-se a enterrar os mortos como Deus manda , já que os soldados o faziam de qualquer maneira: enterravam-nos em fossas comuns. <<Nós, os padres --disse Alfonso no relato -- vimos uma delas. Junto à cova viam-se pedaços de camisas e peças de vestuário. Tinham cavado muito pouco e a fossa era pouco profunda, cheirando a carne humana em putrefacção. Em cima das tumbas encontramos uma cabeça quase sem carne, ossos de costelas, de pernas e 2 dedos de uma mão...>>

MATANÇAS E MUTILAÇÕES -  << Nos dias 3 e 5 de maio as tropas rodesiana entra em Mucumbura e faz uma matança de 15 pessoas. Não importa servir-se de um país racista para matar quem nos molesta. Isso sim, depois proclamar-se-á aos quatro ventos a integração secular de um Portugal multirracial. Entre as vítimas deste massacre estava Davide Jorge, um rapaz jovem, antigo professor da Missão, pai de 3 filhos com menos de seis anos. << Começava a anoitecer e ele ia para casa levando os bois. Sem lhe fazerem qualquer pergunta recebe uma rajada de metralhadora e cai morto. Em seguida os soldados levam-no para um monte próximo, abandonando-o depois de lhe cortarem as mãos e os pés >>. Também são assassinadas várias mulheres jovens com os seu bébés às costas. Depois de fuziladas fazem uma pilha humana e queimam-nas. Há outra vítimas de 12 e 14 anos.
<< No dia 10 de Outubro outro acto cruel no Daque. Os Grupos Especiais matam 19 inocentes, estando entre eles Damião Conga, professor da Missão. A sua morte foi macabra no mais alto grau: levaram-no à escola, e durante hora e meia espancaram-no com enxadas e machadas até o fazerem rebentar. Testemunhas da cena: a jovem esposa que estava grávida e os seus dois filhos com menos de cinco anos. Os verdugos dois militares brancos dos Grupos Especiais. << Adeus Damião Conga! Obrigado pela hospitalidade que sempre me ofereceste quando chegava de visita à tua escola. Adivinho que o teu filho Rafael já não poderá sorrir-se quando me vir como fazia antes, porque se recordará, ao ver-me, que dois homens brancos mataram o seu pai à paulada, como se fosse um cão raivoso>>.
<< Nos primeiros dias de Novembro. Há apenas algumas horas que recebemos o relato de Mecumbura,. O mais lacónico e o mais cruel de todos: mais 23 vítimas, a maior parte com menos de 13 anos. << Um grupo de 40 Comandos --lemos no relato-- chega de helicóptero, de Chicoa à zona de Buxo. Tem ordens para queimar e exterminar tudo o que encontrarem; e sabemos que os Comandos são sempre fiéis em cumprir estas ordens. Queimaram todas as casas que encontraram desde Mahanda até Buxo. Nós  -- Alfonso e Martin -- vimos mais de 50 palhotas queimadas. O milho e tudo o que havia dentro delas foi destruído: roupas, cadeiras, carros de bois, celeiros, bicicletas, tudo...>>

E continua o relato : << Na povoação de António , os Comandos prenderam um grupo de 16 pessoas. Todas mulheres e crianças . Foram obrigadas a entrar para dentro duma palhota  e em seguida começaram a lançar granadas contra elas para incendiar a palhota e queimá-las vivas. Todas as mulheres e crianças morreram abrasadas dentro. Só uma mulher, depois de os soldados se irem, conseguiu sair da palhota toda em chamas e com um ombro desfeito por estilhaços da granada. Ela contou-nos tudo e deu-nos o nome das mulheres e crianças que havia dentro da palhota e que nós enterrámos no sábado dia 6, 
<< Estes acontecimentos continuam com alguns intervalos. Até quando? É a angustiante interrogação que os camponeses de Mucumbura fazem a toda a hora. E nós perguntamo-nos : de que se acusa toda esta gente inocente que, segundo alguns, merece ser tão vilmente ser assassinada? Simplemente por serem presumíveis colaboradores dos adversários, sem provas nem coisa que se pareça. Ou também de terem dado de comer aos da Frelimo quando apareciam nas povoações. Que podiam fazer? Que podiam fazer senão dar de comer ao que tem fome ?.>>
<< A minha pergunta obsessiva é esta: mas será certo aquilo que oiço e vejo? Haverá alguém que ordene ou permita estas atrocidades? Não encontro qualquer desculpa porque não se trata de caso isolado. Houve outros massacres nas árias de Marara, Boroma, Matundo, Moatize, Changara...>>
<< Será que isto é uma guerra santa? Porque nesta guerra há responsáveis que treinam homens para matar e realizar torturas refinadas. Estes homens são os célebres Comandos e Grupos Especiais. Têm que matar ainda que seja atravessando um bébé, lançando ao ar, com a baioneta da espingarda para não se destreinarem. Esta confissão fez um jovem Comando quando estava internado no hospital. Também é verdade que em seguida acrescentou: << Mas a culpa não é nossa, mas daqueles que nos mandam e ensinam a matar>>. Claro, que isto é uma guerra santa, tudo é permitido até matar homens como se fossem ratazanas >>.
Aqui fica isto. E lá, mais longe, fica Mucumbura. As suas gentes não sabem da existência de organismos internacionais que possam preocupar-se com o caso. Não fazem ideia que além dos seus mortos possam existir outros seres que se interessam e se sintam unidos à sua causa. Mas, de facto, há. Por isso eu , e comigo todos os homens sem pelos no coração, denunciamos estes factos e denunciamos uma autoridade que os permite >>.

Enrique Ferrando Piedra.