Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes-Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins- Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MEMÓRIAS DA GUERRA COLONIAL - 1º CAPÍTULO:MOÇAMBIQUE: DA "PACIFICAÇÃO" Á LUTA ARMADA. DE GUNGUNHANA A MONDLANE)


Este texto foi retirado do livro:
 Memórias da Guerra Colonial
Autor: João Paulo Guerra

MOÇAMBIQUE: DA PACIFICAÇÃO ..À LUTA ARMADA

Não podemos aguentar por mais tempo(...) Basta!


O Brado Africano, Lourenço Marques, 1932



Moçambique, na Costa Oriental de África, estende-se na margem direita do rio Rovuma à Ponta do Ouro, com uma superfície total de 771.125 Kms quadrados. As suas fronteiras foram traçadas na sequência da Conferência de Berlim, em 1885, resultando de acordos firmados na altura, ou mais tarde, entre Portugal, a Inglaterra a África do Sul. O traçado das fronteiras de Moçambique, com uma extensão 3.784 km, confinavam, segundo os acordos de partilha colonial, com os territórios do Tanganica (actual Tanzânia), da Niassalândia (Malawi), das Rodésias (Zambia e Zimbabwé), da União Sul-Africana (República da África do Sul) e da Suazilândia. O traçado das fronteiras de Moçambique gerou um conflito entre Portugal e a Inglaterra, com a apresentação do Ultimato Inglês de 1890 e, após a capitulação de Lisboa ao Ultimato, a assinatura do acordo de Julho de 1891 que acabou com o sonho imperial português de dominar uma vasta zona da África Austral, de costa a costa, entre Angola e Moçambique, na zona transcontinental definida pelo chamado Mapa cor-de-rosa.
O traçado das fronteiras coloniais também interferiu com a organização política, económica e social do território. No Norte de Moçambique, os Macondes, com uma identidade muito acentuada e aguerrida, foram separados pela fronteira traçada ao longo do Rovuma: 188 mil Macondes ficaram do lado de Moçambique, 340 mil no Tanganica. A fronteira separou também os Ajauas, 127 mil dos quais permaneceram no Niassa, onde se radicaram também 30 mil Nianjas que habitavam as margens do Lago. A partilha separou igualmente os Acheuas, repartidos por Tete e pelos actuais territórios da Zâmbia e do Malawi, os Tongas, radicados em Manica e na Suazilândia e os Rongas instalados a Sul do Save, em Moçambique, e no Transvaal.

DE GUNGUNHANA A MONDLANE
GUNGUNHANA
Quando o Tratado de Berlim e os acordos que lhe seguiram definiram as fronteiras de Moçambique, Portugal ocupava apenas alguns entrepostos no litoral moçambicano e a maior parte do território constituía uma grande e aguerrida base de resistência à ocupação portuguesa. O mais intenso e organizado foco de resistência era o do Império de Gaza, com capital em Manjacaze, que se estendia das proximidades de Lourenço Marques ao Zambeze onde reinava Gungunhana.Depois do Ultimato, Portugal traçou os planos para a conquista e ocupação do Império de Gungunhana, um reino tradicional organizado, defendido por um poderoso exército de 15.000 homens, parte dos quais dispunha de armas de fogo, comandados pelo chefe militar Maguiguana.
A ofensiva das tropas portuguesas  principiou nos arredores de Lourenço Marques, mas, na contra ofensiva, as forças de Maguiguana tomaram e saquearam a cidade, situando os portugueses na Fortaleza.

Leia o livro de Mia Couto: TRIOLOGIA AS MULUERES DE CINZA: LIVRO UM 


Guerreiros Landis do chefe militar MAGUIGUANA
Só a partir de Janeiro de 1895, com a chegada de reforços comandados por Caldas Xavier e mais tarde por Mouzinho de Albuquerque, o Exército português conseguiu repelir as tropas de fieis a Gungunhana, perseguindo-as até Marracune. A partir dessa data, a superioridade militar dos portugueses começou a impor-se. Entre Setembro e Novembro de 1895, os portugueses venceram as batalhas de Magule e Coolela, tomaram e incendiaram Manjacaze  e por fim já no mês de Dezembro, tomaram e aprisionaram Gungunhana, que foi deportado para Cabo Verde. Porém, só em 20 de Julho de 1897 é que, por fim as forças de Mouzinho de Albuquerque destroçaram as tropas de Maguiguana. As campanhas militares de ocupação prosseguiram até 1920, ano em que foi ocupado o interior Norte de Moçambique, entre Cabo Delgado e o Niassa, no fim de uma ofensiva contra a resistência da etnia Maconde. Outras campanhas militares decorreram em 1898 para ocupar Maganja da Costa, de 1902 a 1904 em Tete e de 1908 a 1912 nas margens do Lago Niassa.

Baixo relevo da estátua de Gungunhana em Lourenço Marques.
Prisão de Gungunhana por Mouzinho de Albuquerque
Juntamente com as tropas de ocupação chegaram a Moçambique as grandes companhias, a maior das quais, a Companhia de Moçambique, foi fundada em Fevereiro de 1891, com sede na cidade da Beira e capitais da Alemanha, Inglaterra e África do Sul. A companhia constituía um verdadeiro Estado dispunha de forças militarizadas que asseguravam a ocupação do território, cobrava impostos, como o chamado " Imposto de Palhota", tinha os seus próprios serviços postais e instituições de crédito.
A companhia de Moçambique tinha o monopólio do comércio, da industria mineira, da agricultura, da pesca e da caça numa vastíssima região concessionada. Em troca da concessão, Portugal recebia 7,5% dos lucros. Outras grandes companhias que se estabeleceram no território foram as do Zambeze, do Niassa, do Luabo, a Societé des Madal e a Sena Sugar Estate.

Clika aqui para leres o blog: na-esteira-do-passado.blogspot.com


               MOEDAS DA COMPANHIA DO NIASSA






A ocupação do território e a chamada "pacificação" de Moçambique, com a submissão pela força militar dos impérios e reinos tradicionais, desarticulou os focos de resistência, embora não tenha feito desaparecer os sentimentos de contornos nacionalistas, que, pelo contrário, se desenvolveram e foram de certo modo encorajados pelo ideário da I República. Em 1908 foi fundado em Lourenço Marques o Grémio Africano, que a partir de 1909 começou a publicar o seu jornal, o AFRICANO, mais tade O BRADO AFRICANO. No seu número de Fevereiro de 1932 escrevia o BRADO:  Não podemos aguentar por mais tempo os efeitos perniciosos das vossas decisões políticas e administrativa (...) Basta!!!Insistimos para que torneis efectivos os vossos deveres fundamentais não com leis e decretos, mas com actos. Queremos ser tratados como vós! O jornal, que expressava os sentimentos dos intelectuais e dos empregados urbanos destribalizados, reclamando pela igualdade de direitos e não ainda pela autodeterminação, foi extinto pela Censura em 1936.
Nos ano 20, coincidindo com o desenvolvimento do Movimento PAN- AFRICANO, foi fundado em Lisboa a Liga Africana, congregando os estudantes das colónias radicados na capital, entre os quais estudantes moçambicanos, e em 1933 foi constituído em Moçambique o Instituto Negrófilo, com uma orientação mais radical que as associações anteriores, e que veio a ser forçado a mudar o nome para Centro Associativo de Negros de Moçambique. O movimento associativo em Moçambique regista ainda a constituição da Associação Africana, nova designação do Grémio Africano, a Associação dos Naturais de Moçambique e organizações de base étnica ou religiosa, como as associações de indianos e de muçulmanos. O regime político português. O regime político português pôs fim a todas essas associações, nos anos 30, e só depois da guerra, na segunda metade da década de 40, foram retomadas algumas dessas iniciativas e actividades. Em 1949, Eduardo Mondlane fundou, em Lourenço Marques, o Núcleo de Estudantes Africanos de Moçambique (NESAM):


Em Quelimane, trabalhadores da Companhia NADAL
ENTRETANTO COMEÇOU A GUERRA
O carácter repressivo do regime português, particularmente brutal e impune nas colónias, era de todo incompatível  com o exercício de um regime de liberdades, nomeadamente da liberdade de associação. Daí que as principais organizações de inspiração nacionalista, de carácter marcadamente político e inscrevendo nos seus objectivos de luta a autodeterminação, que tenham nascido por iniciativa de moçambicanos imigrados nos países vizinhos de colonização inglesa, onde o sistema colonial não excluía a cultura democrática e o exercício de certas liberdades. No final dos anos 50 e início da década de 60, imigrados moçambicanos constituíram a União Nacional Africana de Moçambique (MANU), no Tanganica, a União Democr´tica Nacional de Moçambique (UDENAMO), na Rodésia do Sul, e a União Nacional  Africana de Moçambique Independente (UNAMI) na Niassalândia.
A população de acordo, de acordocom o censo de 1950, era decerca 5.700.000 habitantes. Cerca de 90 mil (1,5 por cento) eram considerados " assimilados", dos quais 48 mil eram brancos, 25 mil mestiços, 12.600 indianos e 4.300 negros. Do total da população, só 36 mil habitantes (o,6 por cento) sabia ler e escrever. De acordo com um estudo da Associação de Estudantes da Universidade de Lourenço Marques relativo a 1972, a percentagem de alunos brancos era de 74,3 por cento no ensino liceal e de 83,5 por cento no universitário; os indianos constituíam, respectivamente, 8,3 e 9,8 por cento; os mestiços 7,9 e 4,9 por cento; os negros 8,3 e 1,1 por cento.


Lourenço Marques, reunião geral de alunos na sua Universidade
Recenseamentos posteriores atribuíram a Moçambique 6.603.000 habitantes em 1960 e 8.233.800 em 1970. Uma análise do crescimento virtual da população revela, no entanto, acentuados saldos negativos de 1960 para 70; menos 40.600 habitantes em Cabo Delgado, menos 5.800 no Niassa e menos 162.900 em Tete. Só nessas três províncias, ao longo da década de 60, mais de 200 mil habitantes substraíram ao controlo dos recenseamentos coloniais:

 CONTINUA


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

VEMOS, OUVIMOS, NÃO PODEMOS IGNORAR!

Histórias de Moçambique

Texto de Coronel R. Cardoso
               Coronel F.Diniz

Este texto foi extraído do Jornal do Exército 659 de Junho de 2016


Ao longo destes últimos anos do nosso passado recente - refiro-me ao pós Revolução de Abril - muitas têm sido as histórias de que vamos tendo conhecimento, relacionadas com o fim da Guerra do Ultramar e o processo de descolonização que Portugal levou a efeito.

Bastantes os escritos que nos têm sido disponibilizados sobre factos desse período. Muitas as imagens que têm passado nos écrans das TV .
De muitos dos episódios  fomos por vezes seus actores, outros chegaram-nos por conversas e tertúlias de que fomos parte.
Algumas dessas ocorrência são mais do domínio público do que outras. Outras até desconhecidas, por intencionalmente omitidos à divulgação.
Numa recente cavaqueira de recordação do passado, tida com um sócio Núcleo do Núcleo de Lisboa, vieram à liça alguns episódios ocorridos em Moçambique em 1974.
Não pude deixar de reter alguns, pelos seus contornos, caracterização e significado.
De forma aberta e suscinta, faço menção a uma acção levada a cabo para resgatar um grupo de militares portugueses de uma companhia sediada em OMAR, no norte de Moçambique, perto de Mocímboa do Rovuma, que haviam sido feitos prisioneiros por um numeroso grupo de guerrilheiros 




da FRELIMO, em Julho de 1974. (Nota do blog: Este acidente deu-se a 1 de Agosto de 1974)
De referir que a captura dos militares foi feita após uma abordagem por um grupo de guerrilheiros que procurou captar as suas simpatias, dizendo que a guerra tinha acabado, para pssibilitar a invasão da unidade por um bi-grupo de guerrilheiros que já tinham a zona cercada.
Numa longa e penosa caminhada, os militares foram levados a pé para a Tanzânia para a zona de NACHINGEWA onde a FRELIMO tinha uma base militar.
O sócio do Núcleo Coronel Fragoso Diniz, à época Capitão na reserva e Chefe de Gabinete do Alto Comissário Contra Almirante Victor Crespo, solicitou que lhe fosse consentido deslocar-se ao norte de Moçambique para levar a cargo diligências junto da FRELIMO, tentando levar consigo os militares portugueses.
O capitão Diniz, solicitou a permissãopara a deslocação na medida em quese apercebeu que as diligências que estariam a ser feitas junto da FRELIMO com o dirigente Aquino de Bragança, lhe levantavam dúvidas sobre a celeridade e o empenho numa resoluçao do problema e também porque era seu entendimento que alguém militar devia coordenar a operação por os prisioneiros serem Oficiais, Sargentos e Praças do  Exército Português.
Em Setembro de 1974, um táxi aéreo, com a tripulação constituída pelos Srs. Edgar Pereira, António Marques e Victor Marques partiu de Lourenço Marques para Porto Amélia com o Capitão Fragoso Diniz e o dirigente da FRELIMO Aquino Bragança.
De Porto Amélia seguiram para a base de MUTWARA, e porque se aperceberam de um certo impasse no desenvolvimento do fim em vista, decidiram seguir para DAR-ES-SALAM, onde foram bem recebidos pelos membros da FRELIMO, designadamente pelo dirigente Marcelino dos Santos, que assumiu dilenciar com objectividade a libertação dos prisioneiros.
Com a garantia obtida, a delegação regressou a NANGADE (Moçambique) de onde os prisioneiros entretanto transportados de NACHIGEWA, na Tanzânia, foram evacuados de avião a 19 de Setembro, durante o dia e a noite.
De salientar que a pista de NANGADE não possuía o mínimo de condições para a operação dado o estado de degradação e sem luzes de sinalização, o que forçou à improvisação de uma iluminação artificial com latas de querosene.


NANGADE
Só o elevado espírito de equipa e serviço de missão, face ao elevado estado de debilidade física e moral dos prisioneiros, permitiu que a tripulação do avião para a evacuação operasse com aquelas condições.
O apreço pelo esforço e coragem de acção foi reconhecido em louvor expresso pelo Alto Comissário.
Interessante é também o discurso do Presidente da FRELIMO Samora Machel, no acto da entrega dos militares portugueses lido por Silva Vieira. O documento por ele assinado, foi entregue à guarda da Liga dos Combatentes, pelo Coronel Fragozo Dinis, através do Núcleo de Lisboa, no passado dia 15 de Abril de 2016.
Dia 20 de Setembro, os prisioneiros de OMAR encontravam-se em território de Moçambique, podendo nesta data proceder-se à tomada de posse do governo provisório conforme determinação do governo português e constituído pela FRELIMO e ministros portugueses.


Ministros do Governo de Transição
É PEÇA DA HISTÓRIA QUE IMPORTA PERSEVAR.