Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~


O Batalhão de Caç. 1891.. Cumprimenta com Amizade,todos os que visitam esta página..Forte abraço.

Faleceu o camarada da CCAÇ 1559. Francisco Branco do Ó Á Familia o BCAÇ 1891 aprsenta-lhe as mais sentidas condolências .


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MEMÓRIAS DA GUERRA COLONIAL - MOÇAMBIQUE: DA "PACIFICAÇÃO" Á LUTA ARMADA. DE GUNGUNHANA A MONDLANE)


Este texto foi retirado do livro:
 Memórias da Guerra Colonial
Autor: João Paulo Guerra

MOÇAMBIQUE: DA PACIFICAÇÃO ..À LUTA ARMADA

Não podemos aguentar por mais tempo(...) Basta!


O Brado Africano, Lourenço Marques, 1932





Moçambique, na Costa Oriental de África, estende-se na margem direita do rio Rovuma à Ponta do Ouro, com uma superfície total de 771.125 Kms quadrados. As suas fronteiras foram traçadas na sequência da Conferência de Berlim, em 1885, resultando de acordos firmados na altura, ou mais tarde, entre Portugal, a Inglaterra a África do Sul. O traçado das fronteiras de Moçambique, com uma extensão 3.784 km, confinavam, segundo os acordos de partilha colonial, com os territórios do Tanganica (actual Tanzânia), da Niassalândia (Malawi), das Rodésias (Zambia e Zimbabwé), da União Sul-Africana (República da África do Sul) e da Suazilândia. O traçado das fronteiras de Moçambique gerou um conflito entre Portugal e a Inglaterra, com a apresentação do Ultimato Inglês de 1890 e, após a capitulação de Lisboa ao Ultimato, a assinatura do acordo de Julho de 1891 que acabou com o sonho imperial português de dominar uma vasta zona da África Austral, de costa a costa, entre Angola e Moçambique, na zona transcontinental definida pelo chamado Mapa cor-de-rosa.
O traçado das fronteiras coloniais também interferiu com a organização política, económica e social do território. No Norte de Moçambique, os Macondes, com uma identidade muito acentuada e aguerrida, foram separados pela fronteira traçada ao longo do Rovuma: 188 mil Macondes ficaram do lado de Moçambique, 340 mil no Tanganica. A fronteira separou também os Ajauas, 127 mil dos quais permaneceram no Niassa, onde se radicaram também 30 mil Nianjas que habitavam as margens do Lago. A partilha separou igualmente os Acheuas, repartidos por Tete e pelos actuais territórios da Zâmbia e do Malawi, os Tongas, radicados em Manica e na Suazilândia e os Rongas instalados a Sul do Save, em Moçambique, e no Transvaal.

DE GUNGUNHANA A MONDLANE

GUNGUNHA




Quando o Tratado  de Berlim e os acordos que lhe seguiram definiram as fronteiras  de Moçambique   Potugal ocupava apenas alguns entrepostos no litoral moçambicano e a maior parte do território constituia um grande e aguerrida base de resistência à ocupação portuguesa. O mais intenso e organizado era o do império de Gasa , com capital em Manjacaze, que se estendia das proximidades de Lourenço Marques ao Zambeze ,onde reinava Gungunhana . Depois do Ultimato , Portugal traçou os pla nos para a conquista e ocupação do Império Gungunhana , um reino tradicional  organizado , defendido por um poderoso exercito de 15.000 homens , parte dos quais dispunha de armas de fogo, comandados pelo chefe militar Maquiquana.




A ofensiva das tropas portuguesas  principiou nos arredores de Lourenço Marques, mas, na contra ofensiva, as forças de Maguiguana tomaram e saquearam a cidade, situando os portugueses na Fortaleza.

Leia o livro de Mia Couto: TRIOLOGIA AS MULUERES DE CINZA: LIVRO UM 



Guerreiros Landis do chefe militar MAGUIGUANA
Só a partir de Janeiro de 1895, com a chegada de reforços comandados por Caldas Xavier e mais tarde por Mouzinho de Albuquerque, o Exército português conseguiu repelir as tropas de fieis a Gungunhana, perseguindo-as até Marracune. A partir dessa data, a superioridade militar dos portugueses começou a impor-se. Entre Setembro e Novembro de 1895, os portugueses venceram as batalhas de Magule e Coolela, tomaram e incendiaram Manjacaze  e por fim já no mês de Dezembro, tomaram e aprisionaram Gungunhana, que foi deportado para Cabo Verde. Porém, só em 20 de Julho de 1897 é que, por fim as forças de Mouzinho de Albuquerque destroçaram as tropas de Maguiguana. As campanhas militares de ocupação prosseguiram até 1920, ano em que foi ocupado o interior Norte de Moçambique, entre Cabo Delgado e o Niassa, no fim de uma ofensiva contra a resistência da etnia Maconde. Outras campanhas militares decorreram em 1898 para ocupar Maganja da Costa, de 1902 a 1904 em Tete e de 1908 a 1912 nas margens do Lago Niassa.

Baixo relevo da estátua de Gungunhana em Lourenço Marques.
Prisão de Gungunhana por Mouzinho de Albuquerque
Juntamente com as tropas de ocupação chegaram a Moçambique as grandes companhias, a maior das quais, a Companhia de Moçambique, foi fundada em Fevereiro de 1891, com sede na cidade da Beira e capitais da Alemanha, Inglaterra e África do Sul. A companhia constituía um verdadeiro Estado dispunha de forças militarizadas que asseguravam a ocupação do território, cobrava impostos, como o chamado " Imposto de Palhota", tinha os seus próprios serviços postais e instituições de crédito.
A companhia de Moçambique tinha o monopólio do comércio, da industria mineira, da agricultura, da pesca e da caça numa vastíssima região concessionada. Em troca da concessão, Portugal recebia 7,5% dos lucros. Outras grandes companhias que se estabeleceram no território foram as do Zambeze, do Niassa, do Luabo, a Societé des Madal e a Sena Sugar Estate.

Clika aqui para leres o blog: na-esteira-do-passado.blogspot.com

               MOEDAS DA COMPANHIA DO NIASSA






A ocupação do território e a chamada "pacificação" de Moçambique, com a submissão pela força militar dos impérios e reinos tradicionais, desarticulou os focos de resistência, embora não tenha feito desaparecer os sentimentos de contornos nacionalistas, que, pelo contrário, se desenvolveram e foram de certo modo encorajados pelo ideário da I República. Em 1908 foi fundado em Lourenço Marques o Grémio Africano, que a partir de 1909 começou a publicar o seu jornal, o AFRICANO, mais tade O BRADO AFRICANO. No seu número de Fevereiro de 1932 escrevia o BRADO:  Não podemos aguentar por mais tempo os efeitos perniciosos das vossas decisões políticas e administrativa (...) Basta!!!Insistimos para que torneis efectivos os vossos deveres fundamentais não com leis e decretos, mas com actos. Queremos ser tratados como vós! O jornal, que expressava os sentimentos dos intelectuais e dos empregados urbanos destribalizados, reclamando pela igualdade de direitos e não ainda pela autodeterminação, foi extinto pela Censura em 1936.
Nos ano 20, coincidindo com o desenvolvimento do Movimento PAN- AFRICANO, foi fundado em Lisboa a Liga Africana, congregando os estudantes das colónias radicados na capital, entre os quais estudantes moçambicanos, e em 1933 foi constituído em Moçambique o Instituto Negrófilo, com uma orientação mais radical que as associações anteriores, e que veio a ser forçado a mudar o nome para Centro Associativo de Negros de Moçambique. O movimento associativo em Moçambique regista ainda a constituição da Associação Africana, nova designação do Grémio Africano, a Associação dos Naturais de Moçambique e organizações de base étnica ou religiosa, como as associações de indianos e de muçulmanos. O regime político português. O regime político português pôs fim a todas essas associações, nos anos 30, e só depois da guerra, na segunda metade da década de 40, foram retomadas algumas dessas iniciativas e actividades. Em 1949, Eduardo Mondlane fundou, em Lourenço Marques, o Núcleo de Estudantes Africanos de Moçambique (NESAM):



Em Quelimane, trabalhadores da Companhia NADAL
ENTRETANTO COMEÇOU A GUERRA

O carácter repressivo do regime português, particularmente brutal e impune nas colónias, era de todo incompatível  com o exercício de um regime de liberdades, nomeadamente da liberdade de associação. Daí que as principais organizações de inspiração nacionalista, de carácter marcadamente político e inscrevendo nos seus objectivos de luta a autodeterminação, que tenham nascido por iniciativa de moçambicanos imigrados nos países vizinhos de colonização inglesa, onde o sistema colonial não excluía a cultura democrática e o exercício de certas liberdades. No final dos anos 50 e início da década de 60, imigrados moçambicanos constituíram a União Nacional Africana de Moçambique (MANU), no Tanganica, a União Democr´tica Nacional de Moçambique (UDENAMO), na Rodésia do Sul, e a União Nacional  Africana de Moçambique Independente (UNAMI) na Niassalândia.
A população de acordo, de acordo com o censo de 1950, era de cerca 5.700.000 habitantes. Cerca de 90 mil (1,5 por cento) eram considerados " assimilados", dos quais 48 mil eram brancos, 25 mil mestiços, 12.600 indianos e 4.300 negros. Do total da população, só 36 mil habitantes (o,6 por cento) sabia ler e escrever. De acordo com um estudo da Associação de Estudantes da Universidade de Lourenço Marques relativo a 1972, a percentagem de alunos brancos era de 74,3 por cento no ensino liceal e de 83,5 por cento no universitário; os indianos constituíam, respectivamente, 8,3 e 9,8 por cento; os mestiços 7,9 e 4,9 por cento; os negros 8,3 e 1,1 por cento.


Lourenço Marques, reunião geral de alunos na sua Universidade
Recenseamentos posteriores atribuíram a Moçambique 6.603.000 habitantes em 1960 e 8.233.800 em 1970. Uma análise do crescimento virtual da população revela, no entanto, acentuados saldos negativos de 1960 para 70; menos 40.600 habitantes em Cabo Delgado, menos 5.800 no Niassa e menos 162.900 em Tete. Só nessas três províncias, ao longo da década de 60, mais de 200 mil habitantes substraíram ao controlo dos recenseamentos coloniais: Entretanto tinha começado a guerra.


A FRELIMO E A GUERRA POPULAR PROLONGADA

O caminho até Lourenço Marques pode levar mais dez ou vinte anos.  

                                                         Eduardo Mondlane


Para a fundação da FRELIMO concorreu decisivamente a independência do Tanganica, em Dezembro de 1961, e a influência do seu presidente, Julius Nyerere, que estimulou e apadrinhou a unificação dos três movimentos. A unificação foi de igual modo inspirada pelo presidente do Ghana, Kwamme Nkrumah, e pela Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias portuguesas (CONCP), na qual desempenhava funções directivas o moçambicano Marcelino dos Santos, dirigente da UDENAMO.

Para a unificação das três organizações foiconstituído um Comité de Coordenação, presidido por Uria Simango. Mas o congresso constituite elegeu Eduardo Chivambo Mondlane para a presidência da Frente. Para outros cargos  de direcção foram designados Uria Simango (vice-presidente) David mabunda (secretário-geral), Paulo Gumane (secretário-geral adjunto) Marcelino dos santos /secretário para os Negócios Estrangeiros), Leo Millas (Defesa e Segurança), João Mumgambwe (Organização) e Paulo Bayeke (Infomação).
A direcção veio a revelar, muito cedo, todas as fragilidades e contradições da FRELIMO. Antes mesmo de ter desencadeado a luta armada, a Frente foi abalada por sucessivas dissidências e deserções. Adelino Gwambe , ex líder da UDENAMO, e Mathwe Mmole, ex-dirigente da MANU, abandonaram a Frente em Maio de 1963 e fundaram, em Kampala, Frente Unida Anti-Imperialista do Povo de Moçambique (FUNIPAMO). Outros dirigentes 
publicaram em 21 de Maio de 1963, também em Kampala, uma declaração de dissolução da FRELIMO, subscrita em nome da UDENAMO, da União Nacional de Monomotapa e do Congresso Nacional Africano de Moçambique . Por essa mesma altura , David Mabunda e Paulo Gumane, então radicados no Cairo anunciaram a criação de um Comité de Restauração da UDENAMO, ao qual se juntou Manuel Mahluza.

" EDUCAR, ORGANIZAR, ARMAR TODO O POVO"

No seu Congresso constituinte, A FRELIMO estabeleceu um programa em três pontos: mobilização do povo e desenvolvimento da consciência nacional; lança amento de um programa intensivo de educação a fim de aumentar a eficácia do combate; formulação de um plano de acção militar tendo em conta a natureza do colonialismo português.
Como primeira etapa, a FRELIMO definiu a formação e consolidação da consciência nacional no seio da própria organização, formada por diferentes etnias, diversos extractos sociais e diferentes graus de formação intelectual. Tratava-se, em primeiro lugar, de ultrapassar o sentimento primário de ódio contra o branco, transformando esse sentimento em consciência política  de luta contra o sistema colonial. Definindo como  inevitável uma guerra prolongada para mobilizar, progressivamente, todos os recursos do povo moçambicano, a FRELIMO definiu de igual modo que tal não seria possível com base em palavras de ordem simplista e meros conceitos racistas, pelo que se impunha desenvolver uma consciência nacional, reforçar o carácter popular da organização e clarificar a sua linha política. A tarefa era tanto ma quanto mais imperiosa quanto no seio da própria direcção da Frente de Libertação havia quem considerasse a luta armada como um simples expediente técnico e quem a encarasse como uma política.
Samora Machel e quadros da Frelimo
O massacre de Mueda, em 16 de Julho de 1960, confirmou a impossibilidade do << diálogo com a metrópole >> preconizado no seio da FRELIMO por alguns nacionalistas do exterior há muito afastados de Moçambique, confirmando as teses dos quadros que preconizavam a luta armada como política. Foi entre os partidários destes últimos que foram recrutados cerca de 250 quadros, de diversas origens étnicas, que em 1963 foram enviados para receberem formação militar na Argélia , na União Soviética e na China. Em Maio do ano seguinte, muitos destes quadros regressaram a Moçambique , desenvolvendo então acções de agitação política e de mobilização das populações para a necessidadede se unirem e de combaterem, de acordo com a estratégia traçada pela FRELIMO em Maio de 1964; um combate <<longo e difícil>>, para o qual era necessário <<educar, organizar, mobilizar, armar todo o povo, fazê-lo participar no combate>>. Tal estratégia teve que enfrentar a oposição de alguns chefes tribais Maconde, oposição que a FRELIMO tentou ultrapassar em Maio de 1964 pela pura e simples eliminação física desses líderes tradicionais de Cabo Delgado. No mês seguinte, a FRELIMO proclamou a insurreição em Moçambique, Mas o conflito no seio da Frente não ficou, obviamente resolvido.
A FRELIMO constitui as suas primeiras unidades de guerrilha em Agosto de 1964 e em Setembro deu início à luta armada. Na decisão da FRELIMO terá pesado o facto de não se querer ultrapassar por qualquer outra organização na liderança da luta. É que, em Agosto de 1964, um pequeno grupo de Macondes da MANU, chefiado por Lucas Fernandes, desenvolveu no norte de Moçambique uma primeira acção armada, assaltando a igreja de Nangololo  e assassinando o respectivo missionário católico holandês, Padre Daniel. O grupo foi neutralizado, Lucas Fernandes foi preso e condenado pelo Tribunal Militar de Lourenço Marques. A FRELIMO que até aí tinha considerado inoportuno o arranque da luta armada, começou a guerra no mês seguinte.

<< FAZER UMA REVOLUÇÃO  >>

 Em 1964, em função desta definição estratégica, começou a guerra desencadeada pela FRELIMO, contra o colonialismo português. Mas começou também uma luta interna de longos anos, que veio mais tarde a polarizar-se em torno da <<nova ordem>> a estabelecer nas áreas de Moçambique controladas pela guerrilha. Para Marcelino dos Santos, foi esse processo de contestação que a FRELIMO desenvolveu a sua linha ideológica, passando de um <<nacionalismo primitivo>>  ao <<nacionalismo revolucionário>>.
A concepção estratégica definida pela FRELIMO determinou, com efeito, a formação e cristalização de duas tendências no seio da organização, um em torno dos velhos notáveis tribais com grande prestígio e autoridade entre as populações rurais, outra em volta dos quadros político-militares formados nas academias militares estrangeiras. 


Foto publicada no jornal da FRELIMO
 "VOZ DA REVOLUÇÃO"

Em 1967 o Comité Central da FRELIMO decidiu criar os Comités Provinciais, como orgãos de poder que centralizassem as decisões à  escala provincial, subordinando todas as actividades civis à direcção da luta armada. A decisão afrontou o poder dos chefes tradicionais e contou com a oposição do vice-presidente Uria Simango, que preconizava que o combate da FRELIMO não devia ser colocado em <<termos ideológicos de luta de classes>>, e de Lázaro Kavandamme, <<MZEE>>, <<O VELHO>>, líder Maconde que defendia uma política de ataque aos centros urbanos de Cabo Delgadoe a proclamação de <<libetação>> da província. A FRELIMO convocou para Julho de 1968 o seu 2º Congresso, no essencial destinado a clarificar  estas questões.
Convocado para Cabo Delgado, o Congresso veio a realizar-se no Niassa. Kavandamme que acusava o Comité Central da FRELIMO de estar sob o controle de elementos do sul do Zambeze - Eduardo Mondlane, Marcelino dos Santos  e Uria Simango - tinha-se afastado da direcção da Frente e a sua influência entre os Macondes de Cabo Delgado não dava à FRELIMO garantias de segurança. Realizado em Julho de 1968, no Niassa, o Congresso reuniu cerca de 150 delegados, na sua maioria jovens quadros militares, que consagraram a linha estratégica e liderança de Mondlane, secundados por Marcelino dos Santos e por Samora Moisés Machel, um jovem quadro representante da linha político-militar. O Congresso alargou a composição do Comité Central com a entrada de novos quadros político-militares, mas confirmou também a vice-presidência de Uria Simango, que mantinha a equidistância entre as duas linhas que se defrontavam na FRELIMO.
Ao 2º Congresso seguiu-se em Agosto de 1968, em Dar-es-Salem, uma conferência de quadros na qual se consumpou a devisão. Mas a luta no seio da FRELIMO não se travou apenas em congressos e conferências. 
Mateus Mutemba
Em Maio de 1967, dissidentes Macondes chefiados por um filho de Kavandamme tinham assaltado a sede da organização, na capital da Tanzânia, e assassinado o dirigente Mateus Mutemba.  Em 22 de Dezembro de 1968 foi assassinado Paulo Kankhomba, chefe operacional adjunto da FRELIMO . Segunos a direcção da Frente, os assassinos foram identificados e terão confessado que tinham sido aliciados por Kavandamme por questões de natureza tribal:tratar-se-ía de um assassínio de um chefe militar Nianja às ordens de um Maconde.


O Nianja Paulo Kankhomba 
Lázaro Kavandamme foi demitido de todas as suas funções em 3 de Janeiro de 1969. Um mês depois, o presidente da FRELIMO Eduardo Mondlane, foi assassinado em Dar-es-Salem. As relações causa e efeito não foram, no entanto, tão lineares como possam parecer.
ELm Maio de 1967, dissidentes Macondes chefiados por um filho de Kavandamme tinha assaltado a sede da organização , na capital da Tanzânia e assassinado Mateus Mutemba.
Mondlane e a Luta por Moçambique

Eduardo Chivambo Mondlane nasceu em 20 de Junho de 1920, em Manjacaze, na província de Gaza, onde concluíu em 1936 os seus estudos elementares. Prosseguiu os estudos em Lourenço Marques, onde frequentou um curso técnico de agronomia, e voltou a Gaza, onde trabalhou durante três anos. Em 1944 obteve uma bolsa para frequentar um curso no Transvaal,que concluíu em 1947, prosseguindo os estudos com um curso de ciências sociais em Joanesburgo. Em 1949, no entanto,o governo sul-africano retirou-lhe o visto de residência no país e Mondlane regressou a Moçambique a Outubro desse ano. Em Lourenço Marques fundou então o Núcleo de Estudantes Secundários Africanos de Moçambique (NESAM), que veio a ser proibido pelas autoridades coloniais. Alguns dos associados foram presos e Mondlane foi deportado para Lisboa.
Em Lisboa , Mondlane frequentou a Faculdade de Letras, ondese matriculou em 1950, e contactou outros estudantes e intelectuais africanos radicados em Portugal, entre os quais Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Mário de Andrade e Amílcar Cabral. 


Eduardo Mondlane estudante nos Estados Unidos
Com uma bolsa de estudos que obteve em Lisboa, Mondlane partiu para os Estados Unidos, onde frequentou o College d'Oberlin, no Ohio, e a Universidade de Evaston, no Illiones,licenciando-se em letras e sociologia. Terminada a licenciatura, durante uma visita a Moçambique, Mondlane foi convidado pelas autoridades portuguesas a leccionar no Instituto de Estudos Ult.ramarinos, mas declinou o convite. De volta aos Estados Unidos leccionou na Universidade de Syracusa, e obteve um lugar como funcionário das Nações Unidas, onde se manteve durante cinco anos. Mondlane visitou uma vez mais Moçambique,  nna qualidade de funcionário da ONU, até que, em 1961, aderiu ao movimento nacionalista moçambicano, fixando-se no Tanganica. Em dar-es-Salam fundou a União dos Estudantes de Moçambique (UNEMO) participando na fundação da FRELIMO em Setembro de 1962. Consiiderado o líder unificador dos movimentod que confluíram na Frente de Libertação, Eduardo Mondlane foi eleito seu presidente
, Mondlane escreveu que << se todos nós sempre dispensámos uma tal importância à educação, é em primeiro lugar porque ela é essencial para o progresso da nossa luta na medida em que o empenhamento e  o apoio da população crecem à medida que ela compreenda melhor a situação; e depois porque, uma vez independente, Moçambique tem necessidade imperiosa de cidadãos instruídos que conduzam o país ao desenvolvimento>>. Através de uma política de educação, Mondlane procurou combater fenómenos como os do tribalismo, do racismo e da intolerância religiosa, qu dividiam os moçambicanos e impediam a formação de uma consciência nacional. Em 1963, um ano após a formação da FRELIMO e um ano antes do levantamento armado, Mondlane criou em Dar-es-Salam o Instituto de Moçambique, com o apoio da Fundação Ford, obtido por sua mulher, Janet Mondlane, cidadã norte-americana. Com o patrocínio das Nações Unidas, o casal Mondlane criou também uma rede de escolas em campos de refugiados moçambicanos no Tanganica.
Janet e os três filhos do casal Mondlane
Mas os programas educativos do casal Mondlane e da FRELIMO não dariam obviamente efeitos imediatos. Na sua mensagem de ano de 1969, Mondlane salientou que 8.000 guerrilheiros da FRELIMO combatiam então um exército equipado com todos os requisitos modernos , ao contrário da guerrilha que deparava com novos e mais complexos problemas à  medida que a guerrilha avançava para Sul, emparticular com problemas de comunicações cada vez mais difíceis. O líder da FRELIMO previu então que o << o caminho para Lourenço Marques poderia levar <<mais dez ou vinte anos>>. E, a par dessa longa guerra&gt, haveria que travar a luta contra o ; tribalismo, as superstições e o baixo nível geral de compreensão dos assuntos políticos e económicos>>.

PLEKHANOV ARMADILHADO

George Plekhanov
Em Janeiro de 1969, na sequência do 2º Congresso, Mondlane trabalhava na preparação de um dossier, a apresentar na primeira reunião do novo Comité Central, sobre o papel de certos <<notáveis tribais>> que manteriam ligações com o aparelho colonial português. O principal visado era Lázaro Kavandamme, chefe tribal Maconde que ganhara prestígio nos anos 50 ao encabeçar a criação de cooperativas agrícolas em Cabo Delgado. Preso como << agitador subversivo >> pelas autoridades coloniais, Kavandamme veio a ser libertado e refugiou-se então no Tanganica, onde fundou uma pequena organização tribal que veio a integrar-se na UDENAMO, participando por essa via 
Por alturas do Congresso de 1968, Kavandamme era secretário regional de Cabo Delgado com a responsabilidade pelo comércio e abastecimentos nas áreas controladas pela guerrilha. De acordo com um comunicado da Frente de Libertação, publicado após a morte de Mondlane, << o Velho >> teria sido denunciado pela população de Cabo Delgado pelo facto de usar << o seu posto na estrutura comercial para servir os seus próprios interesses>>  e de manter << conexões  com forças contra-revolucionárias >> ., acusações que poderiam, muito simplesnte, destinar-se a dar força ao seu afastamento político. De acordo com o mesmo comunicado, Kavandamme teria sido a mão oculta por detrás do assassínio do chefe militar Paulo Kankhomba, em 22 de Dezembro de 1968.


Lázaro Kavandamme, o "VELHO"
. Na manhã de 3 de Fevereiro de 1969, Eduardo Mondlane deslocou-se à sede da FRELIMO em Dar-es-Salam, recolheu o correio e  dirigiu-se para uma vivenda nos arredores da cidade onde tinha por hábito isolar-se para trabalhar. Meia hora depois estava morto pela explosão de um livro armadilhado que chegara entre a correspondência com selo de Moscovo: uma tradução em  francês de textos escolhidos George Plekhanov.No dia 13 de Fevereiro , a polícia de Dar-es-Salam interceptou uma segunda encomenda armadilhada, esta dirigida a Marcelino dos Santos, e no dia 10 de Março foi interceptada uma terceira encomenda, desta feita endereçada a Uria Simango.
As investigações policiais fizeram recair as suspeitas quanto ao transporte das encomendas, sobre Lázaro Kavandmme e Silvéro Nunga, secretário administrativo do quartel-general da  FRELIMO. Quando a polícia tentou deter os suspeitos, eles tinham-se apresentado às autoridades portuguesas.
De acordo com um relatório dos serviços secretos italianos, concluído quatro anos após a morte de Mondlane e divulgado mais tarde por investigadores norte-americanos. Eduardo Mondlane teria sido eliminado no âmbito de uma conspiração meticulosa na qual estariam envolvidos o vice-presidente da FRELIMOria Simango, Kavandamme, Jorge Jardim, que coordenava na região diversas operações secretas, operacionais da PIDE, entre os quais Casimiro Monteiro - o assassino do General Humberto Delgado - e a Aginter Press, uma pseudo-agência de imprensa instalada em Portugal. A Aginter infiltrou um agente, Robert Leroy, nos círculos da FRELIMOem Dar-es-Salam: um seu relatório fornecido à PIDE com toda a  informação sobre a organização.
Jorge Jardim terá sabido da notícia, antes mesmo dela ter circulado pelas agências. Segundo testemunho do chefe de redacção do Notícias da Beira, Jardim compareceu na redacção no dia do atentado - facto de todo inédito - aguardando várias horas pela chegada de uma <<importante notícia >>, precisamente a notícia do atentado contra Mondlane.


Rui Nogar a depositar flores na campa de Eduardo Mondlane
Todas as investigações sobre a morte de Mondlane apontam para Casimiro Monteiro como operacional da PIDE responsável pela montagem e execução do atentado, de acordo com um plano traçado e dirigido por Jorge Jardim.
O envolvimento português na morte de Eduardo Mondlane não anula, no entanto, a existência de gravíssimos conflitos internos na FRELIMO, Jorge Jardim, a PIDE e a Aginter Press ter-se-ão limitado a explorar o conflito ideológico e a divisão profunda no seio da direcção da Frente de Libertação. Como disse, anos mais tarde um dirigente da FRELIMO: << não sendo a PIDE quem plantou esse conflito ideológico entre nós, foi naturalmente a PIDE que o explorou >>.

<< Unanimidade de Fachada >>

O Comité Central da FRELIMO anunciou, em 11 de Abril de 1969, que Eduardo Mondlane não seria substituído. O cargo de presidente da FRELIMO seria suprimido e o seu lugar ocupado por um Conselho de Presidência constituído por Uria Simango, Marcelino dos Santos e Samora Machel. À reeunião do Comité Central seguiram-se longas sessões de discussão sobre a estratégia e a táctica da Frente de Libertação de Moçambique, com sucessivas e dramáticas críticas e autocríticas destinadas a eliminar aquilo que a FRELIMO designou por << unanimidade de fachada >> . 



Marcelo Caetano na cidade da Beira
Os partidários de das teorias de Kavandamme, a havê-los, estavam então sem qualquer autoridade para levantar a voz: o <<VELHO >> tinha-se apresentado ao Exército colonial, apelando aos moçambicanos para que abandonassem a luta e cooperassem com o governo português. Na véspera da visita de Marcelo Caetano a Lourenço Marques as, autoridades coloniais proclamaram que, com a rendição de Kavandamme << o mais inftigável e mais impediososo >> adversário das forças portuguesas, << a guerra terminou >>.
Em 13 de Novembro desse ano, porém, a FRELIMO voltou voltou a defrontar-se com nova quebra da << unanimidade>>. Uria Simango membro do Conselho da Presidência, foi publicamente acusado de violar os princípios e as regras da organização e de cometer actos de indisciplina, ao divulgar um documento com críticas aos outros membros da Presidência - Marcelino dos Santos e Samora Machel.
Uria Simango entrara para a luta política em 1953, quando dirigiu na província de Manica e Sofala um movimento de desobediência contra o recrutamento forçado para o trabalho nas minas da África do Sul.


Uria Simango e a sua família. Cairo 1973
 Preso como instigador, Simango foi libertado poucos dias depois e as autoridades coloniais propuseram-lhe, então, uma bolsa para estudar em Lisboa. Uria Simango  recusou, fez os seus estudos com os missionários anglicanos e foi mais tarde colocado como professor numa missão na Rodésia do Sul.
O investigador Aquino de Bragança  escreveu, por altura da ruptura de Uria Simango com a FRELIMO, que o ex-vice-presidente << nunca entendeu a concepção estratégica da guerrilha defendida defendida pela ala político-militar: uma guerra prolongada para a liquidação da dominação portuguesa >>.
As autoridades coloniais portuguesas, entre 1967 e 69, procuraram explorar com sucessos as crises internas da FRELIMO, intensificando a guerra colonial. Em Junho de 1969 foi designado para o cargo de comandante das forças terrestres de Moçambique o general Kaúlza de Arriaga, um duro do regime de Lisboa, que avançou para Moçambique com planos de operações para << desarticular e pôr em fuga >> o inimigo. Mas, ao mesmo tempo, ascendia na hierarquia da FRELIMO o estratega da Frente da Libertação, Samora Moisés Machel.
Em 10 Maio de 1970, Samora Machel foi designado presidente da FRELIMO e Marcelino dos Santos vice-presidente . Em Novembro de 1971, Samora Machel dirigiu a reorganização dos centros educacionais da FRELIMO e, na ocasião, pôs os pontos nos is da ideologia e da estratégia da Frente: << Nós dizemos frequentemente que no curso da luta a nossa vitória tem sido saber transformar a luta armada de libertação nacional em Revolução. Por outras palavras , o nosso objectivo final de luta não é içar uma bandeira diferente da portuguesa, fazer eleições mais ou menos honestas em que pretos, e não brancos, são eleitos, ou ter no Palácio da Ponta Vermelha, em Lourenço Marques, um presidente preto, em vez de um governador branco. Nós dizemos que o nosso objectivo é conquistar a independência, instalar um Poder Popular, construir uma sociedade nova sem exploração, para benefício de todos aqueles que se sentem moçambicanos >>.
>> É aqui que se encontra a explicação da guerra - pprosseguiu Samora Machel. - O que está em causa é o estabelicimento do Poder Popular que afirma a nossa independência e personalidade e liquidar a exploração, o que implica a destruição do poder dos exploradores que a a fomenta (...) Quando no   nosso seio, entre 1967 e 1969, o grupo de novos exploradores tinha conseguido em grande medida paralisar a direcção e começar a desviar o sentido da nossa luta para implantar de novo uma ditadura de exploradores foi o povo, o instinto de classe das nossas massas laboriosas que, assumindo o perigo que corríamos, deu às forças revolucionárias no seio da direcção o apoio decisivo que nos conduziu à vitória >>. 


Samora Machel
O discurso acentuadamente ideológico e marcadamente marxista e os objectivos estratégicos revolucionários fixaram, em redor de Samora Machel, um núcleo dirigente mais restrito, mas coeso e decidido, que conduziu a luta com impetuosidade, ultrapassando por fim os limites geográficos de Cabo Delgado e do Niassa. Em 1974, a FRELIMO actuava em Cabo Delgado, Niassa, Tete, Zambézia e já na região da Beira e Vila Pery, tendo ultrapassado os sucessivos << tampões >> militares, geográficos e étnicos que se perfilavam, de início, às perspectivas de desenvolvimento da luta armada.
Ao longo dos anos da guerra a FRELIMO foi, sem qualquer , dúvida ou favor a única organização que conduziu a luta armada.
Em Abril de 1969 após o assassinato de Mondlane e a apresentação de Lázaro Kavandamme às tropas coloniais, a FRELIMO decidiu adoptar medidas especiais de << vigilância para prevenir a infiltração de agentes portugueses >> apontando como exemplo de tais << infiltrações >> o caso de Mateus Gwengere, padre católico moçambicano que tinha aderido à Frente de Libertação em Outubro de 1967. Um outro quadro destacado da FRELIMO que, tal como Kavandamme, se entregou às autoridades portuguesas foi Miguel Murrupa. Em Julho de 1972, Murrupa fez mesmo questão de tornar público que não tinha sido capturado: << Foi livremente que cessei  trabalho com a FRELIMO, renunciando a fazer o que quer que fosse com esse movimento e apresentando-me aos portugueses, escreveu Miguel Murrupa numa carta dirigida a diversos jornais europeus. Como moeda de troca, Murrupa arranjou emprego numa empresa de Jorge Jardim  que lhe reservava, no âmbito dos seus  planos de declaração unilateral da independência, a presidência simbólica do futuro estado de Moçambique.
A repressão em Moçambique tinha um carácter selectivo e abatia-se em particular, sobre os quadros com formação intelectual que pudessem, de algum modo, vir a assumir posições de liderança no movimento nacionalista ou conduzir movimentos de opinião contrária aos princípios e valores do colonialismo. Em Janeiro de 1971, segundo o jornal LE MONDE, 18 nacionalistas foram mortos na prisão da Machava, entre os quais Joel Monteiro, dirigente da FRELIMO. Os presos faziam parte de um grupo de 26 detidos em 1964 e condenados em 1966 a cinco anos de prisão. De acordo com Le Monde, Monteiro dirigia na Machava um movimento de resistência à << recuperação >> de presos políticos pela PIDE. Ainda segundo o jornal francês, oito dos presos prestaram-se a colaborar com as autoridades coloniais e vieram a ser integrados nas tropas especiais africanas. Os restantes dezoito resistiram à recuperação  e foram eliminados na cadeia.


O Pastor Presbeteriano Zedequias Manganhela
Em Dezembro de 1972, também na Machava, apareceu morto o pastor protestante Zedequias Manganhela presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana de Moçambique. Preso em 13 de 1972, com outros 31 pastores protestantes, o reverendo Manganhela  ter-se-á sujeitado, segundo a versão das autoridades portuguesas. Já anteriormente um outro dos pastores detidos, José Sidumo, teria morrido de doença na cadeia.
Em 1974, quando terminou a guerra, havia nas cadeias da Machava, de Mabelane e da Ilha do Ibo, cerca de 3.000 presos políticos. Muitos outros tinham ficado pelo caminho, ou mudado de caminho. Em 11 de Julho de 1972, em Porto Amélia, foram restituídos à liberdade 80 dos presos que se encontravam no centro de recuperação da DGS da Ilha do Ibo. A cerimónia decorreu na presença do governador de Cabo Delgado, comandante Santos Prado e do bispo de Porto Amélia, D.José dos Santos Garcia. Para realçar o significado da cerimónia discursou Lázaro Kavandamme, que agradeceu a << indulgência >> das autoridades coloniais.


COMEÇOU A GUERRA

Em Abril de 1961, para responder ao alarme dos colonos face aos acontecimentos em Angola, o governo enviou para Moçambique um corpo de voluntários; em Junho de 1962 criou um fundo especial para pagamento de <<serviços extra>> do pessoal da PIDE nas fronteiras de Moçambique; sucederam-se as visitas de inspecção ao aparelho militar, do secretário do Estado da Aeronáutica, coronel Kaúlza de Arriaga, em Junho de 1962, do ministro da Defesa, general Gomes de Araújo, em Setembro e Outubros de 1963; por essa altura foi também estruturada a organização de voluntários civis do território; em Julho de 1964 foi criado em Moçambique um serviço de acção Psíco-Social para actuar junto da população africana.


Alberto Joaquim Chipande
Simultaneamente, intensificou-se a repressão sobre toda e qualquer reivindicação popular. Já em Junho de 1960 , no Planalto de . Mueda, forças do Exército e da Polícia tinham atraído a uma emboscada, a pretexto da realização de conversações, os líderes de um movimento cooperativo de camponeses que reclamavam mais liberdade de organização e melhores preços como pagamento dos produtos agrícolas. Perante a reacção popular face à prisão dos líderes do movimento, a tropa abriu fogo. <<Mataram umas 600 pessoas>>, testemunhou, mais tarde, um jovem de 22 anos presente no local. Chamava-se Alberto Joaquim Chipande, e quatro anos depois capitaneou os primeiros grupos de guerrilha que, vindos da Tanzania, iniciaram a luta armada no planalto dos Macondes.
  Em Setembro de 1963, Forças Armadas e de polícia reprimiram greves de trabalhadores dos portos de Lourenço Marque e de Nacala. Sucederam-se, entretanto, vagas de prisões, em particular de intelectuais moçambicanos. Em Dezembro de 1964 foram presos, entre outros, o editor do jornal TRIBUNA, João Reis, o pintor Malangatana Valente, os poetas Rui Nogar e José Craveirinha, o novelista Luís Bernardo Honwana, que vieram a ser formalmente acusados de pertencerem à FRELIMO , em Maio de 1965, sendo condenados em tribunal em Novembro de 1966.
Rui Nogar em calções e Craveirinha de pé atrás do banco

COMEÇOU A GUERRA

Em finais de Agosto de 1964, dissidentes da FELIMO pertencentes auma das suas componentes, a MANU, constituída com base tribal nos Macondes, abriram as hostilidades assaltando a missão de Nangololo em Cabo Delgado. O grupo comandado por Lucas Fernandes, foi de pronto neutralizado. Mas a 25 de Setembro de 1964 foi a vez da FRELIMO proclamar: <<Operários e camponeses, trabalhadores das minas, dos caminhos de ferro, dos portos e das fábricas, intelectuais, funcionários, soldados moçambicanos no Exército português, estudantes, homens, mulheres e jovens, patriotas, em vosso nome, neste dia, a FRELIMO proclama solenemente a insurreição geral armada do povo de Moçambique contra o colonialismo português e pela conquista da independência total de Moçambique>>

Nangololo. 5 de Janeiro de 1965
Nesse dia, unidades de guerrilha da FRELIMO atacaram, em simultaneo, os postos administrativos do Chai, em Cabo Delgado, e do Cóbué, no Niassa. No dia seguinte, guerrilheiros da FRELIMO atacaram uma lancha da Armada portuguesa no Lago Niassa. Nos meses seguintes sucederam-se as acções armadas nas duas províncias setentrionais, designadamente com um ataque em Dezembro, ao posto administrativo de Olivença, na fronteira da província do Niassa com a Tanzânia, e operações de menor vulto na província de Tete, com ataques a Charre e Mutarara. 
O plano da FRELIMO previa desendadear a guerra em cinco províncias - Niassa; Cabo Delgado; Moçambique; Zambézia e Tete -, mas a guerra só pegou nas duas primeiras que, pela proximidade 
 O com a fronteira da Tanzânia, asseguravam à guerrilha uma rectaguarda de infiltração e apoio logístico.
Aquartelamento de Olivença
No Norte de Moçambique  a guerra registou um rápido alastramento. Em Cabo Delgado a  FRELIMO subtraiu ao controle das autoridades portuguesas grande parteda população Maconde e a insurreição alastrou do planalto de Mueda para Palma e Mocímboa da Praia, a Norte, detendo-se a Sul no rio Messalo. Para além do obstáculo natural do rio, a FRELIMO deparou na outra margem com a barreira étnica dos Macuas, islamizados e tradicionalmente fiéis às autoridades portuguesas,  ao contrário os Macondes do planalto, animistas e guerreiros. Na província do Niassa, a luta armada das marg,ens do lago para o interior e para Sul, abrangendo as regiões das etnias Nianjas e e Ajauas. Em pouco mais de um ano, no Niassa e em Cabo Delgado, as tropas portuguesas estavam concentradas nas povoações principais, deixando à FRELIMO a liberdade de circulação nos campos e de actuação política entre as populações rurais.ODe p
Dez anos após o ataque ao posto de Chai por um pequeno frupo armado com 6 metralhadoras, 6 espingardas de repetição e 4 pistolas automáticas, a FRELIMO operava no Niassa, Cabo Delgado, Zambézia, Tete, Manica e Sofala, movimentava grandes unidades e utilizava modernas tecnologias de guerra,incluindo foguetes de 122m/m e mísseis terra-ar.


DE <<JOHN KILLER>> AO GENERAL KAPA
Gen. Caeiro Carrasco com instrutores dos 1º e 2º Grupos de Comandos
 Ao longo dos dez anos dez anos de guerra em Moçambique, as Forças Armadas portuguesas desenvolveram diferentes estratégias e tácticas militares, segundo as concepções dos sucessivos comandantes-chefes. No início da guerra, em 1964/65, sob o comando do general João Caeiro Carrasco, as tropas portuguesas deixaram a iniciativa à FRELIMO, respondendo-lhe acção por acção. O general Caeiro Carrasco -  John Killer - , como era designado entre as tropas - preconizava a movimentação de grandes contingentes de tropas para a realização de grandes operações de represália e limpeza.  A revista JEUNE AFRIQUE, na edição de 9 de Setembro de 1972 atribui-lhe a seguinte sentença: << É preciso matá-los a todos. << Os  homens porque são terroristas; as mulheres porque serão as mães dos terroristas; os rapazes porque serão terroristas; as raparigas porque serão as mães dos terroristas>>. De acordo com esta filosofia, foi sob o comando do general  <<John Killer>> que ocorreu, em 22 de Fevevereiro de 1965, em Macomia, Cabo Delgado, o primeiro massacre de populações civis que se recusavam a ingressar em aldeamentos controlados pelo Exército português.


Macomia. ECAV 1 Moçambique. Actual Comando Distrital da Polícia.....
A estratégia do general Carrasco revelou-se totalmente fracassada, até porque o comandante-chefe não dispunha dos efectivos e meios necessários à realização das sua megalómanas operações de limpeza. Deixando várias zonas rurais à guerrilha, a estrtégioa do general Carrasco permitiu à FRELIMO organizar várias áreas sob o seu controle, onde a guerrilha estabeleceu bases de apoio no interior, desenvolveu a produção agrícola como forma de sustento e criou profundos itenerários para infiltração e circulação dos guerrilheiros.
O brigadeiro Abel Barroso Hipólito, comandante do sector no Niassa de Outubro de 1966 a Agosto de 68, escreveu mais tarde que a FRELIMO organizou as populações da região em cooperativas agrícolas, por forma a assegurar o abastecimento da guerrilha em géneros alimentícios à cuata de culturas locais, chegando a exportar o <<excedente da produção>>. Gabando-se de <<ter virado a maré>> no Niassa a favor das tropas portuguesas durante os seus 22 meses de  comando, o brigadeiro reconheceu, ao mesmo tempo, que esse era apenas um <<sucesso táctico>>. 

Sebastião Mabote
A FRELIMO comandada na região por Sebastião Mabote, Armando Panguene e outros chefes guerrillheiros, <<considerava a luta estrategicamente longa>> e, perante cada grande ofensiva das tropas portuguesas, adoptava, << um sistema extremamente móvel de implantação>>, furtando-se <<à fixação>>, abandonando <<temporáriamente osseus quateis>> e transferindo-se <<para uma região contígua>>.
Entre 1967 e 1969, os generais Paiva Brandão e Costa Gomes procuraram corrigir a estratégia do general Caeiro Carrasco, por forma a conter a expansão da guerrilha e a impedir a sua fixação em bases no interior do território. Os generais optaram pelos métodos de quadrícula para ocupação militar do terreno e desenvolveram a instituição de aldeias com protecção militar para controlo das populações. A FRELIMO, porém tinha ganho um considerável avanço nos anos anteriores, o que lhe permitiu suportar, simultaneamente, o impacto de novas estratégias e tácticas militares entre 1967 e 69. Apesar dos sucessos tácticos da quadrícula portuguesa e dos abalos na sua direcção a FRELIMO manteve as suas posições mais inexpugnáveis, quer na zona montanhosa do Norte do Niassa quer em Cabo Delgado, e a partir de 1969 voltou a dominar as comunicações terrestres no Norte de Moçambique. As pequenas unidades da quadrícula portuguesa ficavam em geral, isoladas, dispondo com frequência apenas do reabatecimento aéreo. Dominando as vias terrestres, a FRELIMO progrediu para Sul deixando na esteira da progressão estradas e picadas semeadas de minas A tropa portuguesa designava a província do Niassa por <<o estado de minas gerais>>.
Tropas a detectar minas
E foi então que chegou a Moçambique o general Kaúlza de Arriaga, engenheiro militar, professor de estratégia, especialista em estratégia nuclear e estratégia de guerra subversiva, fundador das Tropas Paraquedistas. Teoria não lhe faltava, que o general tinha ido beber ao manuais de contraguerrilha norte-americanos; foi uma questão de traduzir <<search and destry>> por <<operações de busca e destruição>>,  <<strategic hamlets>> por <<aldeamentos estratégicos>> e <<vietnamização>> por <<africanização>>. A prática foi Moçambique, para onde foi nomeado em Julho de 1969 como comandante das Forças Terrestres e em Março de 1970 como comandante-chefe das Forças Armadas.

OS CORREDORES DO INFERNO

A Operação Nó Górdio foi um sucesso: General Kaúlza de Arriaga

O Nó Górdio foi um fracasso: General António de Spínola

DO NÓ GÓRDIO À FRONTEIRA
A estratégia do general Kaúlza de Arriaga assentou, no fundamental, nos seguintes vectores: desalojar a FRELIMO de Cabo Delgado, através da Operação Nó Górdio; explorar o sucesso da Nó Górdio e criar uma zona <<tampão>> na fronteira Norte de Moçambique, através da Operação Fronteira; criar um outro <<tampão>> com a albufeira de Cabora Bassa; aldeamento estratégico das populações e africanização das tropas.
28 mortos e 27 feridos graves em 35 dias 
Clika aqui para leres a crónica: Nó Górdio, a versão de quem lé esteve.


Mais um ferido na Operação Nó Górdio
No dia 19 de Março de 1971 deu-se um facto inédito em 13 anos de guerra: o general Kaúlza de Arriaga fez uma comunicação ao país, através da RTP, sobre os pormenores e êxitos da Operação e a sua crença na vitória final.
 Para explorar o seu próprio sucesso, Kaúlza teve que reconhecer implícita e explicítamente que a anterior situação militar em Moçambique era desastosa, o quelhe valeu a inimizade de alguns dos seus pares. O general Costa Gomes, um dos anteriores comandantes militares em Moçambique,  afirmou mais tarde, em entrevista a O JORNAL de 30 de Junho de 1978: <<Foi a Operação mais ruinosa durante as guerras que tivemos que sustentar. Tivemos cento e tal mortos, não sei quantos feridos e, praticamente, não encontrámos inimigos>>.
Operação Nó Górdio. Armamento capturado pela 18ª CCMDS
Ao jornalista e investigador José Freire Antunes, Costa Gomes disse queo <<Nó Górdio foi-nos prejudicial>. E o general Spínola - que nunca teve direito a tempo de antena para os seus sucessos militporares na Guiné - opinou,  por seu lado, que <<o Nó Górdio foi um fracasso>>. Silva Cunha ministro do Ultramar ao tempo da operação e mais tarde ministro da Defesa escreveu que a Operação teve um <<êxito momentâneo>> que <<rapidamente se desvaneceu>>, explicando ue a concentração de forças para o Nó Górdio enfraqueceu as defesas a Sul do rio Messalo e em Tete, permitindo a progressão da FRELIMO para Sul. De facto, nesse ano de 1970 e nesse mês de Agosto de 1970, e após ter retirado antecipadamente de Cabo Delgado grande parte das suas forças, deixando apenas alguns focos de resitência para concentrar as atenções da Operação Nó Górdio, a FRELIMO estendeu a sua acção para Sul do rio Zambeze. 


Ao centro o  Cmdt da FRELIMO Assuane, prisioneiro de guerra
A fase seguinte da estratégia do general, a Operação Fronteira, patia do pressuposto de que a Operação Nó Górdio teria varrido a FRELIMO de Cabo Delgado, tratando-se então de impedir novas infiltrações. Para tanto, Kaúlza concebeu a criação de um <<tampão>> de desenvolvimento económico e social ao longo do rio Rovuma e irradiando da localidade de Nangade para Palma, no litoral, o que incluía a asfaltagem de estradas, a criação de outras infra-estruturas e até mesmo a instalação no local de uma rede de televisão por cabo! Tratava-se de uma tão fantástica como absurda mobilização de meios humanos, técnicos e materiais, para a qual num os portugueses estavam habilitados, nem a FRELIMO suficientemente derrotada e desmobilizada em Cabo Delgado. O penoso transporte de materiais, em longas e pesadas colunas desde Mocímboa da Praia a Nangade, sofrendo sucessivas emboscadas e accionando sucessivas minas, tornou-se de todo insustentável e a Operação Fronteira não foi além da megalomania do projecto
As operações Nó Górdio e Fronteira tinham em vista, para além dos objectivos militares imediatos, outros fins e interesses. Estavam então em marcha, com os projectos das barragens do Cunene, em angola, e de Cabora Bassa, em Moçambique, palno para erguer no Sul do continente africano em grande e sólido <<bastião branco>> que assosiasse as colónias portuguesas à Rodésia de Ian smith, à África do Sul do apartheid e à Namíbia colonizada. ao mesmo tempo, erguiam-se novos projectos económicos multinacionais visando a exploração das riquezas do subcontinente.
João Salazar, Furriel da 4ª CCMDS de Moçambique
junto á fronteira com a Rodésia.
A estratégia do general Kaúlza não obteve, no entanto, os fins previstos. A concentração de meios e esforços em Cabo Delgado para a Operação Nó Górdio permitiu o avanço da FRELIMO para Sul, tal como a grande concentração de meios próximos e afastados, em redor de Cabora Bassa - onde chegaram a estar localizados mais de metade dos efectivos militares portugueses para Moçambique - facilitou a progrssão da guerrilha sobre Manica e Sofala, pondo em xeque o corredor entre Salisbúria e a Beira, de importância estratégica vital para a sobrevivência do regime rodesiano.

<<MOÇAMBIQUE - AMEAÇA À RODÉSIA>>

O general Kaúlza de Arriaga teve que travar outras guerras durante a sua permanência em Moçambique, para além da guera contra a FRELIMO. As concepções estratégicas exigiam meios difícilmente mobilizáveis por um país arasado do ponto de vista económico e que mantinha três guerras coloniais. Kaúlza de Arriaga entrou em choque com o governador geral, Arantes e Oliveira, e os seus planos militares em relação a Cabora Bassa só avançaram quando o governador foi substituído por Pimentel dos Santos.Tal como entrou em choque com o governo de Lisboa , que lhe recusou as propostas para a <<destruição total>> das bases da FRELIMO na Tanzânia, por meio de bombardeamentos aéreos, e para a criação de um comando militar único para Angola e Moçambique. Como se tudo isto não bastasse, o general entrou também em conflito com os vizinhos rodesianos, embora essa fosse uma guerra surda.

Ken Flower, chefe dos serviços secretos rodesianos
Em Setembro de 1971, o chefe dos serviços secretos rodesianos, Ken Flower, visitou Lisboa onde se reuniu com Marcello Caetano, com o chefe do Estado - Maior general Venâncio Deslandes, e com o director-geral da DGS, major Silva Pais. Flower transmitiu aos portugueses as críticas do seu governo à actuação de Kaúlza de Arriaga e dos soldados metropolitanos em Moçambique. Caetano levou a mal as críticas, mas, um ano depois, o próprio Ian Smith deslocou-se a Lisboa entregou a Marcello Caetano um dossier: <<MOÇAMBIQUE - AMEAÇA À RODÉSIA>> E a ameaça era tal que os rodesianos deslocaram para a fronteira com Moçambique unidades especiais de guerrilha que acabaram por se envolverem em operações em território moçambicano. É que a estratégia de concentração de tropas do general Kaúlza de Arriaga permitiu à FRELIMO dominar o terreno e aos guerrilheiros do Zimbáwé estabelecer as suas bases de rectaguarda em Tete. Ken Flower discutiu as questão com o próprio Kaúlza de Arriaga, em Janeiro de 1973, no Quartel General em Nampula. Escreveu mais tarde que o general o recebeu na sala de operações do QG, rodeado de mapas e <<transportado pelo seu próprio entusiasmo, obcecado pelos seus pretensiosos planos>>. Mas enquanto os rodesianos preconizavam a definição de uma estratégia comum para a defesa da linha do Zambeze, necessáriamente comandada por eles próprios. Kaúlza aspirava ao comando das tropas do <<MAPA COR DE ROSA>>.
Serra Ochoa, perto de Vila Gouveia em Manica e Sofala
João Salazar da 4ª CCMDS de Moçambique, exausto.


 A estratégia do general também passava pelo aldeamento das populações e pela africanização das tropas.<<os aldeamentos - escreveu Kaúlza - tinham de ser implantados em grandes quantidade e depressa, sacrificando-se inicialmente a qualidade à quantidade>>. Destinado a isolar a guerrilha e a manter as populações sob controle militar, o projecto das aldeias estratégicas ignorava a vontade das populações, serem ou não deslocadas e aldeadas. A deslocação e o aldeamento à força tiveram resultados trágicos, que acabaram por atingir o próprio general. Kaúlza de Arriaga terminou a sua comissão em Moçambique em Junho de 1973, no auge do escândalo internacional sobre os massacres de wiriyamu. Obviamente, não foi reconduzido.

<< UMA CONCEPÇÃO CRUEL DE GUERRA>>

Uma vez que Lisboa recusou a Kaúlza de Arriaga a pretensão de criar um comando único para Angola e Moçambique - de modo a permitir-lhe a utilização em Moçambique de tropas eventualmente excedentárias em Angola, onde a situação militar se encontrava mais favorável - o general avançou pela alternativa de africanização das tropas, criando os Grupos Especiais (GE), os Grupos Especiais Paraquedistas (GEP) ecomo unidades de os Grupos Especiais de Pisteiros de Combate (GEPC), como unidades de élite recrutadas em Moçambique e mantidas como reserva de intervenção do comando-chefe.


Soldados dos GEP
 O Centro de Instrução de Grupos Especiais (CIGE) foi instalado no Dondo, a 30 Kms da Beira, em Setembro de 1971, e parcialmente financiado por Jorge Jardim. Kaúlza escreveu que as suas tropas especiais <<estavam em cursode se transformarem numa instituição>>, que <<cobriria Moçambique por inteiro, só por si, seria capaz de lutar e vencer>>. Mas escreveu também que <<as autoridades centrais sempre reagiram mal ao GE e GEP>>. Segundo Jorge Jardim, o próprio Marcello Caetano criticava a <<concepção cruel da guerra>> das tropas africanas que actuavam de acordo com <<os seus preconceitos tribais>>. Em sentido 
 contrário e tal como escreveu Kemn Flower, os rodesianos criticavam o carácter convencional das tropas especiais, considerando-as mais <<uma extensão da mesma falhada estratégia>> do general Kaúlza. O regime da Rodésia preconizava para Moçambique a criação de grupos de <<caçadores de cabeça>>, do tipo dos <<Flechas>> de Angola e dos seus próprios <<Selous Scouts>>.
Kaúlza de Arriaga ainda procurou obter do governo central a recondução no comando-chefe de Moçambique com um alagamento das suas competências. Mas o governo acabou por não lhe renovar a comissão de serviço. A 9 de Julho de 1973 , Marcello Caetano escreveu para comunicar ao general <<a vantagem para si, para Moçambique, para todos nós, em outra pessoa rever os conceitos e as tácticas da acção anti-subversiva>>.
Kaúlza deixou Moçambique em 2 de Agosto de 1973, sendo rendido pelo general Boto Machado, mas deixou traçada a estratégia para o futuro imediato, que o seu substituto não ousou ou não soube alterar: manter os efectivos mínimos para o equilíbrio táctico em Cabo Delgado e no Niassa, reforçando o papel das milícias do comandante Roxo e companhia,consolidar o aldeamento do rio Messalo e acelarar o aldeamento em Tete, concentrar o esforço e defesa nos acessos a Cabora Bassa e outros pontos de importância estratégica, quer em Tete quer nos eixos de Manica e Sofala, intensificar o papel e a intervenção das tropas especiais africanas.


Pela nota 69/71 de 17 Abril de 1971, do
Comandante Chefe das Forças Armadas,
foi designado o Coronel Paraquedista
Costa Campo para Comandante Geral
dos GE e GEP
Mas  todos os equilíbrios acabaram por ser desfeitos. É que a estratégia dos chefes militares portugueses, marcada por profundos preconceitos, não tinha em conta a existência de uma estratégia militar e política por parte da FRELIMO. <<Os portugueses -comentou Samora Machel em entrevista à ÁfricÁsia de 2 de Agosto de 1971 - tinham designado o Zambeze por "barragem natural". No ano passado (1970), intensificámos o trabalho de organização e mobilização das margens na província de Tete. Esse trabalho permitiu-nos penetrar facilmente para lá do Zambeze, em direcção ao Sul. (...) É uma região industrialmente desenvolvida, o que nos permitiu mobilizar facilmente a população e empenhá-la na luta armada.




Começámos as operações militares em Agosto de 1970. (...) Intensificámos as operações em Abril e Maio de 1971, mas não perdemos de vista o objectivo visando desencorajar a construção de Cabora Bassa. Mas Cabora Bassa não é a nossa única preocupação. O nosso objectivo é controlar o distrito de Tete, controlar todo o país>> 
O general Kaúlza de Arriaga reconheceu, mais tarde, que em 1971 <<esteve à vista a vitória portuguesa total (...) e o fim da luta em Moçambique, mas que em 1973 <<parecia que a conjuntura tinha melhorado>> Em seu entender, o retrocesso ficou a dever-se à construção da barragem de Cabora Bassa, <<decidida e iniciada levianamente - segundo o general -, sem que tivesse sido feito qualquer avaliação da sua projecção nos domínios políticos e estratégicos>>.


Barragem de Cabora Bassa em construção
O próprio Marcello Caetano Marcello Caetano criticou no seu DEPOIMENTO o projecto de Cabora Bassa - <<uma obra regional desproporcionada com o desenvvolvimento global da provínci>> - e as suas implicações do ponto de vista da estratégia militar, não perdendo a oportunidade para deixar um remoque ao próprios chefes militares: <<Cabora Bassa atraíu o terrorismo para o distrito de Tete, de onde ameaçou cortar ao meio, com invidência sobre a Beira, a província de Moçambique, sem que as Forças Armadas lograssem contê-lo eficazmente.

12 COMBATES POR DIA

O exército português esperava que a FRELIMO adoptasse em Tete a mesma táctica que usara nas províncias setrentionais. Em vez disso, a FRELIMO passou a movimentar grandes contingentes para atacar o dispositivo de segurança de Cabora Bassa e a atacar de forma sistemática as vias de acesso às obras da barragem, em particular a estrada Changara - Mucumbura, que ligava a Rodésia ao Malawi com trânsito por Tete, que ficou conhecida entre as tropas portuguesas por <<Corredor do Inferno>>. O Exército português orientou a sua acção sobre as zonas de Mucumbura e de Changara, tomando em Janeiro de 1973 a base da FRELIMO nesta última região, onde apreendeu considerável quantidae de material e abateu alguns dos mais importantes chefes de guerrilha entre os quais Armando Tivane. Porém, com as tropas portuguesas acantonadas em grandes complexos militares, de onde deslocavam forças helitransportadas para as operações, a FRELIMO implantou-se em Tete, diluindo-se entre as populações.


Tropas helitransportadas
Por outro lado, dominando as vias de circulação, a FRELIMO conseguiu progredir sobre Manica e Sofala, onde iniciou as acções armadas em Julho de 1972. Ao mesmo tempo os combates voltaram a intensificaram-se no Norte, relativamente desguarnecido em função da prioridade a Tete e Cabora Bassa. Em 18 de Setembro de 1972, ao mesmo tempo que combatia em Tete, em Manica e Sofala, a FRELIMO atacou simultaneamente 7 bases militares portuguesas nas províncias do Norte, entre as quais a base de Mueda e o respectivo aérodromo militar, abatendo no solo um número considerável de aviões e helicópteros ( NOTA DO BLOG: esta informação não é verdadeira).
As operações a Sul so Zambeze incidiram, em particular, sobre as vias de comunicação, criando a insegurança no estratégico Corredor da Beira - a estrada, o pipeline e o caminho de ferro entre a Beira, no litoral, e Untali, na fronteira rodesiana.
Nos primeiros meses de 1974, a situação militar em Moçambique desmentia, todas as previsões triunfalistas dos estrategas portugueses. Segundo o relatório da 3ª Repartição (Operações) do Quatel General da Região Militar de Moçambique, nas províncias de Manica e Sofala, a actividade da FRELIMO atingiu <<o valor mais elevado>>, aumentando <<quer qualitativa quer quantitativamente>>. Em Tete, a situação estava estacionária, e, embora se tivesse registado um <<decréscimo no número de acções violentas>>, tinham aumentado a <<infiltração de material destinado às frentes de Manica e Sofala e também da Zambézia. Em Cabo Delgado, a actividade bélica tinha aumentado <<ligeiramente no aspecto quantitativo e, mais sensívelmente, no qualitativo>>,  com ataques aquartelamentos <<em elevado número, alguns de grande evergadura>>, e com a utilização desde 11 de Abril, de mísseis terra - ar. No Niassa verificou-se por esta altura um <<acentuado acréscimo>> da actividade militar e a FRELIMO passara a empregar foguetes de 122m/m.
Com recente construção a Ponte do Rio Lunho, foi destruída
durante o ataque ao aquartelamento do Lunho em 23/09/1971
Segundo o mesmo documento, em Fevereiro de 1974 registaram-se em Moçambique 293 acções da FRELIMO, número que aumentou, em Março para 358 e para 443 em Abril. Quer isto dizer que nos últimos três meses do regime colonial, as tropas portuguesas tiveram que enfrentar, em seis províncias de Moçambique, uma média de 12 ataques da FRELIMO. E a tendência era sempre crescente.


CENTENAS WIRIAMUS

Naquela tarde, em WIRIYAMU  e JUWAU só se ouviam os berros dos soldados, os disparos das armas e os gemidos das vítimas feridos de morte.

Do relatório dos PADRES DE BURGO




As guerras coloniais na Guiné, Angola e Moçambique são um cortejo de horrores, qualquer que seja o lado que se observa. Mas nenhum episódio de sangue e dor teve maior eco na opinião pública mundial do que o massacre das populações civis de Chawola, Juwau e Wiriyamu, no regulado de Gandali, na província moçambicana de Tete, em Dezembro de 1972.
O impacto da denúncia dos massacres deve-se, antes de mais, ao facto de ter sido publicada por  The Times de Londres, num artigo do padre Adrien Hastings. Os massacres de Wiriyamu tinham já vindo a público anteriormente, em  denúncias do padre Césare Bertulli, publicadas na Alemanha e em Roma através da agência Cablo Press , em Junho de 1973, um mês antes da denúncia do padre Hastings. Mas a publicação por The Times e a utilização que a oposição trabalhista britânica fez do artigo na luta política contra o governo conservador, por ocasião da visita a Londres do chefe do governo português , é darem ao caso uma dimensão mundial. E isto porque a denúncia do padre Hastings, baseado no relatórios dos padres da Congregação de Burgos que actuavam na província de Tete, constituía um documento de choque de indesmentível verdade.
Na sua edição de 10 de Julho de 1973, The Times publicou na primeira página, com continuados  para as páginas 5 e 15, o artigo <<Portuguese massacre reported by priests>>, assinado por Adrien Hastings. Reportando-se  a relatório dos missionários espanhóis, o autor relatava massacres anteriores, ocorridos na região de Mucumbura, em Tete, em Maio de 1971, detendo-se depois nos acontecimentos de 16 de Dezembro de 1972, no regulado de Gandali que terão resultado no massacre de 400 homens, mulheres e crianças às mãos de <<tropas brancas>> e africanas da 6ª CCMDS>>. O relatório e o artigo incluíam listas nominais de 177 vítimas, entre os quais se contavam crianças de poucos meses de idade, e descreviam os métodos brutais usados pelos autores do massacre.
The Times voltou ao assunto,com novos pormenores contidos nos relatórios dos Padres de Burgos, segundo os quais tudo teria começado quando um avião ligeiro aterrou em Tete, em 16 de Dezembro de 1972, e o piloto relatou que tinha sido alvejado do solo. Uma patrulha do exército que saíu de Tete em missão de reconhecimento caiu numa emboscada. A força aérea bombardeou a região que foi depois atacada por tropas de assalto helitransportadas. O relato que se seguiu, baseado nos depoimentos dos sobreviventes e na observação do local pelos missionários espanhóis, continha cenas de particular atrocidade.

<<NÃO FOI UM ACAMPAMENTO DE TERRORISTAS>>




<<Depois do bombardeamento - escreviam os missionários de Burgos - os soldados - comandos, previamente helitransportados, que já haviam posto cerco às ditas povoações, invadiram-nas com fúria, aumentando o terror dos seus habitantes, já em pânico pelos bombardeios.
<<Uma vez dentro das povoações, esse grupo entregou-se imediatamente ao saque das palhotas, seguindo-se depois o massacre do povo, quase revestiu de excesso de crueldade.
<<Um grupo de soldados juntou uma parte do povo num pátio, para o fuzilamento. O povo assim reunido foi obrigado pôr-se em sentado em dois grupos: o grupo dos homens num lado e o das mulheres noutro, a fim de poderem ver melhor como iam caindo os fuzilados.
<<Um soldado chamava por sinal a quem quisesse (quer homem, quer mulher, quer criança). O designado punha-se de pé, destacava-se do conjunto, o soldado abria fogo sobre ele e a vítima caía fulminada. Este foi o processo que fez mais vítimas (...)




<<Acompanhavam os soldados alguns agentes da DGS/PIDE, que também estavam a actuar na matança. Um deles, de nome Chico Kachavi, que parecia ser o chefe do grupo, antes de matar, às vezes começava por agredir as suas vítimas a murros, até prostá-las exaustas (...)
<<Outros soldados que andavam dispersos, obrigavam a gente a meter-se para dentro das palhotas, que depois incendiavam, morrendo a gente queimada  dentro delas. À s vezes antes de pegar fogo às palhotas, lançavam para dentro delas granadas, que explodiam sobre as vítimas. Depois é que deitaram fogo às palhotas (...) Outros soldados divertiam-se a matar crianças, agarrando-as pelas pernas, arremessando-as contra o solo ou contra as árvores (...)


<<Naquela tarde em Wiriyamu e Juwau só se ouviam os berros dos soldados, os disparos das armas e os gemidos das vítimas feridas de morte. O povo de Wiriyamu  e Juwau viveu um momento de terrível angústia!
<<Estas cenas duraram até ao pôr do sol. Nessa altura, a soldadesca estava já fatigada de tantas sevícias. Alguma vítimas então lograram escapar da morte fugindo(...)
<<Hoje as ruínas calcinadas das povoações de Wiriyamu, Juwau e Chawola e os esqueletos humanos que juncam o solo daquelas terras são testemunhos incontestáveis do drama sangrento>>.l



<< O relato dos sobreviventes e o relatório dos padres não eram os únicos testemunhos dos massacres. Uma comissão da Delegação de Saúde de Tete visitou o local duas semanas depois, e nunca desmentiu os dados do relatório. E oficiais portugueses inspeccionaram o local, onde terão detectado restos mortais de mais de uma centena de vítimas. Os relatórios dos missionários assinalavam que <<duas grandes povoações>> situadas a 25 Kms de Tete, foram <<totalmente aniquiladas e arrasadas>>, sublinhando que se tratava de aldeias civis e  não de <<um acampamento de terroristas>>.

<<QUALQUER COISA DE MUITO GRAVE>>

O governo português desmentiu, no dia seguinte ao da publicação, os factos relatados por The Times, afirmando desconhecer qualquer acontecimento, na data e no local dos alegados massacres, que pudesse dar origem às acusações, ou chegando mesmo a insinuar que não existiria em Moçambique qualquer localidades designada Wiriyamu.


Duas semanas após os acontecimentos de 16 de Dezembro de 1972, oficiais portugueses inspeccionaram a região elaborando um inquérito dirigido ao comandante-chefe das Forças Armadas em Moçambique, general Kaúlza de Arriaga. O relatório intitulado <<Inquérito Wiriyamu>> foi, no entanto, mandado arquivar pelo general nos primeiros dias de Janeiro de 1973. E Marcello Caetano, no seu DEPOIMENTO, revela que a Defesa Nacional só lhe deu a conhecer o Inquérito depois do governo ter desmentido a ocorrência dos alegados massacres. Porém, o chefe do governo tinha sido alertado para os acontecimentos três meses antes da publicação do artigo do padre Hastings, em Abril de 1973, pelo Núncio Apostólico de Lisboa. E já depois de ter recebido o relatório do inquérito mandado arquivar pelo general Kaúlza de Arriaga, Marcello Caetano voltou a desmentir os factos, na <<conversa em família>> de 26 de Julho de 1973, afirmando que << a prática de violências>> não faziam parte da doutrina do governo português.
Já depois
Jorge Jardim em Wiriyamu
Já depois da revelação pública dos acontecimentos, Jorge Jardim visitou o local acompanhado por <<especialistas>> dos serviços de informações, pelo chefe de posto da DGS/PIDE em Tete, inspector Joaquim Piçarra Sabino, e por três jornalistas , encontrando nas ruínas das povoações Chawola, Juwau e Wiriyamu <<indiscutíveis vestígios de excessos dispensáveis cometidos, meses atrás,por unidade militar que actuou sob instruções precisas>>, tal como escreveu Jardim em Moçambique, Terra Queimada, acrescentando: <<sem ser verdade o que os padres haviam feito correr mundo, o certo é que existia qualquer coisa de muito grave e sem precedentes na guerra de Moçambique>>.
Menos de um mês após as revelações do padre Hastings, foi a vez do Sunday Times publicar, em 5 de Agosto de 1973, um novo e explosivo capítulo do dossier Wiriyamu, através da entrevista de um dos sobreviventes, um jovem de 16 anos de nome António, recolhido após o massacre pelo padre José Sangalo, da missão de S. Pedro. A PIDE/DGS procurou insistentemente saber do paradeiro do sobrevivente, chegando a prender e a interrogar o padre Sangalo. O sacerdote recusou-se, no entanto, a localizar a testemunha, convencido de que o objectivo da PIDE/DGS era o de silenciá-lo, ou pelo menos <<convencê-lo>> a dar uma versão menos chocante sobre os acontecimentos. As dúvidas do padre Sangalo agravaram-se quando o único dos participantes do massacre que fora identificado, o agente da PIDE/DGS Chico Kachavi, foi misteriosamente assassinado nos arredores de Tete. Retaliação? Eliminação de uma testemunha? O padre Sangalo não encontrou resposta e, na dúvida, preferiu defender a testemunha do massacre. O padre acabou por ser expulso de Moçambique, depois de ter sido acusado pela PIDE/DGS de manter <<ligações com a FRELIMO>>.
M
<<ATÉ QUE O ESCÂNDALO REBENTOU>>

A denúncia pública sobre os massacres de Wiriyamu ganhou particular impacto pelo facto de ter ocorrido nas vésperas da visita de Marcello Caetano a Londres. A oposição trabalhista reclamou a anulação da visita numa moção que considerava que o chefe do governo português <<não poderia ser considerado como persona grata em Inglaterra ou em qualquer outro país civilizado. Caetano chegou a Londres a 16 de Julho de 1973 e a visita de três dias de correu entre escoltas de polícia e manifestações de hostilidade
Marcello Caetano regressou a Lisboa; no dia 20, os governos da Dinamarca e da Holanda propuseram a realização de um inquérito internacional sobre os massacres e o secretário geral da ONU apelou a Portugal para que abrisse negociações com vista a pôr fim à guerra em Moçambique; no mesmo dia, depondo perante a Comissão de Descolonização da ONU, Marcelino dos Santos afirmou em nome da FRELIMO: <<As atrocidades cometidas pelo Exército português, pelo seu horror e barbaridade, exprimem a verdadeira natureza do regime colonial fascista. (...) Todo o acto do regime colonial fascista português é um crime.. Enquanto ele durar o crime subsistirá>>, no dia 23 de Julho, 13 dias após a denúncia do padre Hastings, o general Kaúlza de Arriaga foi substituído pelo general Basto Machado no comando militar de Moçambique, deixando o território nos primeiros dias de Agosto.

Coronel Armindo Videira e Gen. Kaúlza de Arriaga
A hierarquia militar encontrou um <<bode expiatório>> no governador de Tete, coronel paraquedista Armindo Videira, transferido do seu posto nos primeiros dias de Setembro de 1973. No entanto as tropas envolvidas no massacre não dependiam do governador de Tete, pois estavam colocadas como forças de intervenção da dependência directa do comando-chefe. O próprio Kaúlza  jamais admitiu as acusações, reconhecendo apenas, em entrevista publicada por DIE WELT de 27 de Junho de 1973, que civis moçambicanos teriam sido vítimas de <<excessos>>, nos últimos anos, por parte de militares que teriam sido punidos. Mas o general acrescentou que tais casos não ultrapassariam uma dezena pelo meio de 10 mil operações militares realizadas desde que assumira o comando-chefe em Moçambique.


Mário Azevedo, na época, Alferes Milº, transmitiu-nos a seguinta rectificação: Quem foi substuído do comando da ZOT e transferido para Nampula, foi o Brigadeiro Rocha Simões e substituído no cargo pelo Coronel Videira.
Conquistar corações ou cortar cabeças

A verdade, porém, é que já em Julho de 1970, Marcello Caetano tinha alertado o general Kaúlzade Arriaga  para a importância de <<criar nas Forças Armadas a mentalidade desta guerra>>, na qual interessava <<mais conquistar corações do que cortar cabeças aos mortos>>

Um horror para a nossa causa.

Caetano referia-se , em carta a Kaúlza, à publicação  por Der Spiegel, na edição de 15 de Junho de 1970, de fotos da decapitação de um guerrilheiro por soldados portugueses em Moçambique. <<Um horror para a nossa causa>>, comentou Marcello Caetano na carta a Kaúlza de Arriaga.

Wiriyamu, Chawola e Juwau não foram casos isolados em Moçambique. Anteriormente , e de igual modo por intermédio de missionários, tinham sido denunciados massacres de civis em Mucumbura, igualmente em Tete, em 1971 e 1972, envolvendo no primeiro caso unidades militares da Rodésia do Sul em operações no interior de Moçambique. A denúncia destes casos, feita no púlpito da Igreja de Macúti, na Beira, pelos padres Joaquim Teles Sampaio e Fernando Mendes, levou à sua prisão e posterior instrução de um processo em Lourenço Marques, no qual eram também arguidos os missionários espanhois Martin Hernandez e Alfonso Valverde, presos em território da Rodésia e entregues à PIDE/DGS em Moçambique.

 


Os massacres, de acordo com a denúncia dos missionários, verificaram-se entre Maio e Novembro de 1971 e testemunhas do processo ditaram para os autos pormenores de grande violência e crueldade. A religiosa católica Divina Vasques Rodriguez , enfermeira na missão de Mucumbura, teve conhecimento de um dos massacres através de familiares das vítimas, uma mulher e doze crianças queimadas vivas dentro de uma palhota. A religiosa Clemade Prada Rodriguez, igualmente de Mucumbura, soube dos massacres através de uma sobrevivente que conseguiu escapar, embora com um ombro esfacelado por um estilhaço de granada. Segundo o seu relato, a tropa de Comandos mandou entrar as vítimas para as palhotas, depois metralhou-as, lançou granadas para o interior e, por fim, pegou-lhes fogo. A religiosa Gaudência Huidobro confirmou, perante o juíz de instrução, a ocorrência dos massacres, precisando que se verificaram em Maio, Setembro e Outubro de 1971, nas aldeias de Kapinga, Katacha, Mahandi e António, na região de Mucumbura, causando um total de 66 vítimas identificadas. O padre Alfonso Valverde Leon foi avisado sobre o massacre e visitou a aldeia, onde sepultou os restos mortais de quatro mulheres e onze crianças, queimadas no interior de uma palhota. De acordo com o seu depoimento para os autos, num outro massacre, a poucos kms de distância , as tropas envolvidas na acção deixaram uma inscrição numa árvore: <<Somos a 28ª Companhia de Comandos. Fazemos isto àqueles que ajudam os turras>> O padre Henrique Fernandez testemunhou, por sua vez, que se verificaram massacres de civis em 3 e 5 de Setembro e 3 e 4 de Novembro, em Mucumbura, e em 10 de Outubro de 1971, em Daque. No primeiro caso, de acordo com o seu testemunho, participaram tropas rodesianas.



Todos estes factos, para além de ditados para os autos dos processos,foram comunicados pelos missionários ao bispo de Tete e ao governo português. Em 24 de Novembro, o ministro do Ultramar mandou proceder a um inquérito. Em 14 de Janeiro de 1972, o comandante-chefe general Kaúlza de Arriaga, deu por concluído o inquérito, <<Não se confirma - rezava o respectivo relatório - que o comandante do Batalhão de Cavalaria 3837, (coronel Craveiro Lopes) tenha dado ordens de <<exterminar>> tudo o que encontrasse ao comandante da 28ª companhia de Comandos. Carece em absoluto de fundamento a acusação de term sido queimadas vivas numa palhota dezasseis pessoas na povoação de António>>
Em Julho de 1972, tal como relatou mais tarde The Observer, tropas rodesianas operando em Moçambique conduziram<<uma sistemática campanha de assassínios de homens, mulheres e crianças>>, <<decapitaram camponeses>>, <<queimaram cabanas e armazéns de alimentos>>, ao mesmo tempo que bombardeiros e helicópteros rodesianos bombardearam aldeias no Vale do Zambeze. O facto era duplamente melindroso para o governo português. Por um lado , eram os massacres em si mesmos e, por outro, era o envolvimento directo das tropas da Rodésia de Ian Smith em operações dentro das fronteiras de Moçambique. O facto, revelado por The Observer em Setembro de 1973, veio apenas engrossar a onda do escândalo de Wiriyamu. Aliás, logo após a publicação do padre Hastings, diversos otros casos de massacres apareceram à luz do dia.

<<Os tristes acontecimentos em Moçambique>>


Na denúncia de todos estes e de muitos outros casos semelhantes, os missionários assumiram um papel altamente interveniente, o que não significa que a denúncia das violências e atrocidades da guerra fosse a posição comum e oficial da hierarquia da igreja.


D. Custódio Alvim Pereira
A primeira posição da hierarquia  foi, aliás, de sentido totalmente contrário e partiu do arvebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira. Em entrevista ao Die Welt, publicada em 26 de Julho de 1973, o prelado garantiu que  não se haviam verificado massacres de Wiriyamu tal como Tue Times os descrevera, sendo os relatórios dos padres espanhóis <<uma invenção>>montada com <<fins políticos por cristãos marxistas>>. O arcebispo disse ainda que a Conferência Episcopal de Moçambique apenas tinha tomado conhecimento de um caso em que tropas portuguesas se terão excedido <<na defesa>> de serem atacados. O arcebispo mentia. A Conferência Episcopal de Moçambique que ele próprio presidia tinha comunicado ao governador-geral, em 31 de Março de 1973, o caso Wiriyamu. <<Centenas de pessoas>>, algumas das quais absolutamente inocentes, perderam a vida por acção das Forças Armadas>>, escreveram os bispos, manifestando a <<mais veemente indignação e protesto (...) face a ocorrência desta natureza, sejam praticados por Forças Armadas, por elementos da FRELIMO ou por quaisquer outros>>. O governador Pimentel dos Santos, respondeu aos bispos em 3 de Abril, declarando que as ordens superiores eram para evitar, <<tanto quanto possível>>, <<sofrimentos e prejuízos à população>>, mas que <<infelizmente (...) podem ocorrer incidentes>>. Quanto ao caso concreto, estava a <<decorrer um inquérito>>. A troca de correspondência entre os bispos e o governador foi revelada em Setembro de 1973 pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, que condenou >>todos os actos de violência que se oponham aos direitos e às vidas de seres humanos>>. A declaração do Patriarca de Lisboa foi totalmente cortada pela censura.
O Papa Paulo VI - logo após a publicação do artigo do padre Hastings tinha afirmado, em 23 de Julho, que <<a Igreja não pode deixar passar os crimes cometidos contra populações inocentes sem exprimir os seus vivos lamentos>> - recebeu em 21 de Setembro os bispos de Tete, D. Augusto César Ferreira da Silva, de Quelimane, D. Francisco Nunes Teixeira, e de Nampula D. Manuel Vieira Pinto, para se informar sobre <<a situação missionária nas respectivas dioceses><. Dias depois, Paulo VI evocou na sua homília <<os tristes acontecimentos em Moçambique>>
Dois correspondentes da imprensa internacional - Peter Pringle, do Sunday Times, e Michael Knipe, de The Times - foram expulsos de Moçambique pela PIDE/DGS. Quem circulou sempre com inteira liberdade de movimentos foi o correspondente em Lisboa do Daily Telegraph, Bruce Loudon, que ao longo dos anos da guerra se especializou como porta-voz de desmentidos do, no seu primeiro despacho governo português . Em Julho de 1973, no seu primeiro despacho sobre o caso de Wiriyamu, datado de Lourenço Marques, Loudon garantia que a localidade de Wiriyamu nem sequer existia e procurava dar a volta ao escândalo revelando um relatório da PIDE/DGS segundo o qual a FRELIMO teria massacrado 2.500 civis moçambicanos, desde o início da guerra em 1964


Carta Missionária de Tete. Wiriyamu vinha no mapa
Não ficou ninguém para contar

O facto de todos estes casos terem ocorrido na província de Tete não é meramente ocasional, antes resulta de aspectos estratégicos da guerra em Moçambique. A actuação da FRELIMO caracterizou-se pela supressão das bases logísticas e pela diluição dos guerrilheiros entre a população, As Forças Armadas portuguesas, então comandadas por Kaúlza de Arriaga, responderam com a construção de <<aldeamentos estratégicos>>, procurando desse modo isolar a guerrilha e manter as populações sob controlo militar. Em 1973 tinham sido instalados em Tete 164 <<aldeamentos>>, com uma população de 170 mil habitantes, e prosseguiam as operações para a deslocação forçada de 230 mil habitantes da província. As populações resistiram ao aldeamento forçado o que provocava, por parte das tropas portuguesas, acções de violência e de represália. Tinha sido assim e pelos mesmos motivos, aliás, que ocorrera o primeiro massacre referenciado como tal, em Macomia no ano de 1965. Em Chawola, Juwau e Wiriyamu não ficou ninguém para aldear.
Mas, para além de Wiriyamu, houve <<centenas>> de Wiriyamu em Moçambique>>, como escreveu o padre holandês José Martens ao denunciar, já em Junho de 1974, o massacre de cerca de 500 habitantes da região de Inhaminga, na província de Sofala, entre Agosto de 1973 e  Março de 1974, também na sequência da rejeição pelas populações do aldeamento forçado. 
Culpados? Respondeu o padre Martens: << os soldados são os nossos soldados, rapazes normais com família que amam, noivas para casar, juventude para viver. Todos nós temos culpa daquilo, como povo inteiro que não evitou a guerra>>.



FIM


Sem comentários: