Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!~


O Batalhão de Caç. 1891.. Cumprimenta com Amizade,todos os que visitam esta página..Forte abraço.

Faleceu o camarada da CCAÇ 1559. Francisco Branco do Ó Á Familia o BCAÇ 1891 aprsenta-lhe as mais sentidas condolências .


terça-feira, 20 de junho de 2017

MAFALALA: MEMÓRIAS DO 7 DE SETEMBRO DE 1974.


AS MEMÓRIAS DO COMANDANTE GALO
                                                    Aurélio Le Bon

                                                                               Irmãos 
Há batuques no silêncio da noite
Que não se ouvem Há batuques no silêncio da noite
Que não se ouvem
São da cor da palmatória
Mas não se ouvem
E a palmatória 
Ouve-se sempre
E é por isso que temos que silenciá-la
Com a força maior que a dor
E, vamos irmão 
Vamos, porque a palmatória
Silencia o meu batuque.

Malangatana Valente Ngwenha

          AURÉLIO LE BON -  COMANDANTE GALO

Atenção, Atenção.
Galo, Galo Amanheceu. Em nome do MFA e da FRELIMO. Peço a todos os camaradas que se dirijam com a maior calma possível para todos os pontos da cidade, a fim de controlarem as massas que se dirigem para o centro da cidade.
(...) Galo. Galo Amanheceu. Galo Amanheceu. Peço a todos os camaradas que estejam à escuta da emissora Rádio Clube de Moçambique, mas todos sem qualquer excepção, que se dirijam às áreas onde se sabe haver violência, a fim de procurar dominá-la, seguindo à risca o programa de paz e amizade tão proclamado pelo Presidente António de Spínola e Samora Machel.
(...) Galo, Galo, Galo Amanheceu. Pede-se a que  toda a população colabore, sem qualquer hesitação. com as Forças Armadas e Policiais, na garantia da segurança das pessoas e haveres. Só de um esforço conjunto poderá resultar a verdadeira paz para todo o povo de Moçambique.

 

Nasci a 17 de Março de 1950 na Vila de Manhiça. Quando nasci a minha mãe, Lídia Generosa Ngovene, tinha apenas 15 anos de idade. Meu pai José Marcelino Carvalho dos Santos, veterinário de profissão, que servia as vilas da Manhiça, Xinavane e Magude. A notícia de que o meu pai havia tido um filho com uma rapariga local rapidamente chegou aos ouvidos de sua esposa Maria Custódia Carvalho dos santos. Esta de imediato decidiu visitar a minha mãe e ver com os próprios olhos a criança. Quando ela olhou para mim viu a estampa do marido, e disse: Sim este menino é filho do meu marido. Confirmado que era filho de NHWA TI HOMO (homem dos bois), como meu pai era carinhosamente chamado pela população, a D. Maria Custódia decidiu tratar de mim. Assim eu ganhei uma segunda mãe. 
Um ano mais tarde, o meu avô paterno José Carvalho dos Santos, avisou ao meu tio Cossa casado com a minha tia Lea Ngovene, que o meu pai e a minha boamastra planeavam levar-me para Portugal. Porque ele não achava correcto que eu fosse retirado do convívio da minha mãe, sugeriu que ela se prevenisse com o apoio da sua família. Com o apoio do meu tio Cossa, a minha mãe decidiu atravessar a fronteira em direcção da África do Sul. Vivi alguns anos no Componde da companhia mineira onde o meu avô trabalhava.
Regressámos mais tarde para Moçambique e mudamo-nos para Lourenço Marques, onde a minha mãe passou a trabalhar na fábrica de sumos e doces Loumar.
Um dia, uma senhora de nome Lucrécia Camporeal Le Bon viu-me a brincar e gostou de mim. Ela era proprietária de muitas casas de madeira e zinco e de alvenaria no Chamanculo. Ela passou a levar-me para a sua casa onde eu passava todo o dia.
Um dia ela decidiu propor a minha mãe que eu passasse a viver com ela na sua casa, onde eu pudesse ter todo o apoio que a minha mãe não me podia dar.
A D. Lucrécia havia perdido um filho com Pierre Le Bon (seu marido), que se estivesse vivo naquela altura teria exactamente a mesma idade. Foi assim que com cinco anos de idade passei a viver com esta família, que me adptou e educou-me em ambiente religioso e de classe média.
Em 1957 fui viver na cidade da Matola com a minha família adoptiva. Nessa, altura o meu segundo pai, Pierre France Le Bon, foi encarregado de coordenar as instalações da FASOL (Fábrica Associativa de Óleos Limitada). Começámos a construir a nossa própria casa nessa altura, na qual vivemos até à data da Independência Nacional (altura em que deixei de ver o meu pai biológico).
Fiz os meus estudos primários em diferentes escolas. Primeiro nas Igrejas da Munhuana e Missão de S. José. Mais tarde, quando já vivia na Matola, estudei na Escola Oficial da Matola sob a direcção do Professor Bento Morais Sardinha. Também frequentava a Paróquia de São Gabriel na Matola na Catequese e participação nos Corais da Igreja sob a direcção do Padre italiano Estanislau. Mais tarde fui para a Escola Secundária Joaquim José Machado, onde hoje funciona a Universidade Pedagógica, e depois para a Escola Industrial.


Aurélio Le Bon e OS ATLAS
No princípio da década de 1970 havia dezenas de bandas musicais em Lourenço Marques e um pouco por todo o país.Lembro-me do Benjamim Alfredo, do meu amigo e concorrente João Paulo, do exímio guitarrista Azambujo da banda Os Tokadores, do baterista Sete, Lembro-me ainda dos Irmãos Tamele, d João Domingos, do Djambo, dos Flechas, o guitarrista Alfredo Caíco, do Curcumbinho, do Zeca Manhambane com Né Afonso, dos Rebeldes da Beira, do grupo Oliveira Muge e as Irmãs Muge de Vila Pery (Chimoio), do cantor Álvaro Correia Mendes e o conjunto San Remo, dos Montros, dos Night Stars, da Banda Diplomática, dos Corsários, dos Inflexos, dos Cartolas, do cantor Wazimbo e o seu conjunto Gueizers, do AEC 68, dos Cinco de Roma, do cantor Gabriel Chiau, do Fany Mfumo, e do Dilon Nginge. Lembro-me ainda e com muita saudade das minhas Bandas, Os Atlas e Opus 79. Esta última fez uma importante revolução na música Pop e no estilo Umderground em Moçambique.
Matola possuía na época o melhor sistema de transportes exclusivos para estudantes da Matola para todas as escolas secundárias de Lourenço Marques. O sistema era garantido pela Companhia de Transportes da Matola, no qual os estudantes possuíam um passe que pagavam mensal ou trimestralmente  a custos relativamente baixos. Isso permitia que fosse à cidade de Lourenço Marques com muita facilidade, sobretudo quando comecei a trabalhar. Trabalhei na Cromadora como aprendiz e ajudante de Tipografia; na Empresa Moderna como zincógrafo, e na Agência de Publicidade Excelsior como desenhador e Maquetista de publicidade.

A 5ª Companhia de Comandos e a Guerra Injusta

Em 1971 fui seleccionado na segunda chamada para o Serviço Militar Obrigatório. Apto para o SMO, iniciei a recruta no Centro de Instrução de Boane em Junho so mesmo ano. Depois fui seleccionado para o 5º Cursos de Comandos. Embarquei no navio Pátria rumo à cidade de Porto Amélia (Pemba) com destino ao Batalhão de Comandos em Montepuez, onde cheguei em Novembro de 1971. Em Fevereiro de 1972 conclui a formação e recebi o distintivo de Comando.


Monepuez. Fevereiro de 1972. Entrega dos crachás
ao Comandos da 5ª Companhia
O ano de 1972, foi o ano de grande circulação de informações sobre o fracasso da Operação Nó Górdio. Clika aqui para leres acrónica: Nó Górdio. A versão de quem lá esteve. Ficamos a saber que entre a Primeira e a Segunda Companhias de Comandos nas bases Beira e Raimundo já havia o desespero de se restabelecer a capacidade operativa para suster os avanços da guerrilha da FRELIMO, que estava bastante motivada pelo sucesso nas batalhas de Cabo Delgado. Quando cheguei a Montepuez  as guerras americanas no Vietname, Laos e Cambodja, estavam ao rubro. A intensidade da formação como Comando também despertou-me. Apercebi-me que havia ali algo de muito sério. 
Havia muita disciplina. O treino era muito intenso e usávamos balas verdadeiras. Fomos treinados em minas e armadilhas, e recebemos treino com helicópteros. Praticávamos ginástica de aplicação militar, luta corpo a corpo, e fazíamos travessias de rios e treino de reconhecimento de armas pelo seus sons. Dos 500 mancebos saídos do Quartel de Boane, somente 125 concluíram o Curso de Comandos em Montepuez.
A estrutura militar do Batalhão de Comandos seguia ainda uma primeira linha de treinamento trazida pelos pelos primeiros instrutores belgas que formaram as primeiras Companhias em Moçambique. As Companhias constituídas em Moçambique eram sempre misturadas com a entrada de cerca de 1 a 2 grupos de Comandos formados em Portugal ou Angola, para evitar que os moçambicanos se unissem e constituíssem unidades permeáveis às investidas do Movimento de Libertação (FRELIMO)
A título de exemplo, a 5ª Companhia de Comandos, da qual fiz parte, recebeu um grupo formado em Portugal. Mas mesmo assim nasceram algumas simpatias pela FRELIMO  entre os Comandos pois havia circulação de material de propaganda da FRELIMO  na Companhia, e a leitura de livros considerados subversivos.
Foi da escuta clandestina nas nossas casernas da Voz da FRELIMO, cujos receptores os guardávamos escondidos por debaixo da terra, que passámos a conhecer figuras como Samora Machel, Marcelino dos Santos, Armando Guebuza, Rafael Maguni, e outros. A minha namorada e compamheira inseparável, Gabriela Valério, fazia chegar à Companhia, em correio registado, literatura camuflada com capas trocadas, que circulavam entre nós. Desses livros lembro-me de A História me Absolverá, de Fidel Castro; Cartas da Prisão do líder americano dos Direitos Cívicos Jesse Jackson; da obra Diário de um Combatente de Ché Guevara; poesias das canções de Zeca Afonso e muitos outros.
Devido àquela situação, que se tornava insustentável e punha em risco a integridade do exército, a nossa Companhia passou a ter no seu seio agentes da PIDE/DGS com a missão de fazer o necessário reconhecimento de acções subversivas. Os resultados não se fizeram esperar. Numa madrugada, enquanto estávamos em Guro, na Província de Manica, foram formados três Grupos (os quais estavam integrado além de mim o Armindo Leite e o Chiau do 5º Grupo de Combate, o Elísio Santos do 3º Grupo, o Sharibongo, o João Victor do 2º Grupo, e o Manuel Joaquim Pearson, Vagomestre ou Logístico da Companhia,com a missão de despir todos os símbolos da paz e deitar fogo, confiscar todos os livros e receptores de rádio e suas respectivas antenas, e recolher toda a propaganda política subversiva da FRELIMO. Foi ainda proibida qualquer referência sobre o assunto, nem mesmo em tom de brincadeira ou em anedotas.


A 5ª CCMDS no dia 10 de Junho 1973 em Lourenço Marques
No percurso para Xitima, na Província de Tete perto do Songo, em Cahora Bassa, eu e o meu companheiro Armindo Leite decidimos criar a canção Hei Terrorista, uma adaptação de uma canção brasileira Hei Motorista, que era muito famosa na época. A canção começava com as seguinyes palavras: Hei Terrorista Machambeiro ou Guerrilheiro, cuidado com os Comandos senão podes morrer. Com esta letra da nossa autoria, conseguimos reverter a difícil situação e confundir a vigilância dos agentes da PIDE/DGS que já estavam infiltrados nas nossas unidades de combate.
Em Abril de 1973, Xitima era uma zona sem contacto e muito menos de combates. Quando lá voltámos, 3 meses depois, já não se podia andar numa área de 5 Kms sem haver combates.
Para além de Cabo Delgado, operei também em Tete e em Manica e Sofala. Tete foi para mim o melhor barómetro do tipo de guerra que se desenvolvia, e dos objectivos de Nachingwea. Havia aqui a Zona Operacional de Tete,com a finalidade  de defender e proteger Cahora Bassa, ainda em construção, e que era o principal alvo da guerrilha. Durante todo o meu tempo de serviço no exército colonial na 5ª Companhia de Comandos eu continuei a interpretar canções coordenando pequenas Bandas Musicais que nos ajudavam a passar o tempo e ampliar a nossa rede de amizade dentro e fora da Companhia. Era assim o principal animador dos meus colegas nos lugares mais recônditos. Cheguei a ser conhecido como cantor em quase todas as unidades militares, sobretudo nas zonas de combate conhecidas como zonas 100% , onde a situação era muito tensa.Muitas vezes fui retirado dessas zonas 100% de helicóptero para Montepuez a fim de liderar o conjunto musical Banda Seis, que fazia digressões por Porto Amélia e Nampula por ocasião das festas de Santo António e nas Celebrações da Páscoa e do Natal. A Banda Seis ou a Banda da 5ª Companhia tinha sempre um tamanho indefinido de membros, de forma a podermos resolver o maior número possível de colegas com algum talento musical. No entanto, os meus insubstituíveis da banda eram o Agamo gani, ( na guitarra Solo e Ritmo), Elísio Santos (guitarra Baixo), Durão (bateria) João Victor, qua apesar de não ter grande jeito para a música, acompanhava-nos com um Reco-Reco.
Outros que fizeram parte da banda eram o Jihan Matola João, o Filipe Arzílio Mata, o Pedro Liso, e o Cabral. Fui ainda organizador de Eventos Culturais e de entretenimento na Ilha de Moçambique, onde fizemos muitas actividades ao vivo durante os períodos de descanso da nossa Companhia. E foi aqui, durante uma festa em que liderava a banda musical, que conheci a minha namorada e companheira, Gabriela Valério, que viria a ter um papel preponderante para o meu crescente sentimento nacionalista e a minha decisiva participação no Grupo Galo da Mafalala, em Setembro de 1974.
Findo o meu tempo de serviço militar obrigatório, passei à disponibilidade em Março de 1974, um  mês antes do golpe de 25 de Abril. Regressei nessa altura à cidade de Lourenço Marques


Os Grupos de Esclarecimento da FRELIMO em Lourenço Marques

Logo após o golpe de 25 de Abril de 1974 em Lisboa, que derrubou o regime colonial - fascista Português, então dirigido por Marcello Caetano surgem de imediato os primeiros Grupos de Esclarecimento da FRELIMO, em Lourenço Marques. Estes grupos eram dirigidos por militantes da FRELIMO que haviam pertencido na sua maioria à IV Região Militar. Importa aqui explicar o que foi a IV Região Militar . Aquando do início da Luta de Libertação Nacional em 1964, a FRELIMO dividiu o território de Moçambique em quatro regiões para acção militar. A primeira era Cabo Delgado e Niassa. A segunda era Tete. A   terceira era o sul do Zambeze até Manica e Sofala. A quarta região era o sul do Save.
Ainda em 1964 foram enviados guerrilheiros à IV Região para preparar o início da luta.
Coube a Matias. MBoa, que fugira para a Tanzânia na companhia de Samora Machel e com quemfoi à formação militar na Argélia, o comando do grupo da IV Região. Muitos guerrilheiros chegaram em grupos muito pequenos, com instruções para manter o maior sigilo sobre as suas actividades, que no início deviam consistir em recrutar jovens e preparar o terreno para o desencadear da luta, Mas dadas as condições de  policiamento e serviços de inteligência colonial implantadas no sul de Moçambique pela PIDE/DGS, era bastante difícil o lançamento da luta nesta região. Com muito poucas excepções, quase todos os guerrilheiros foram presos pela PIDE. 
Foram também presos muitos dos simpatizantes da causa da luta que haviam sido contactados pelos guerrilheiros. A direcção da FRELIMO decidiu então encerrar a IV Região.
Acusados de terrorismo, quase todos os dirigentes e militantes da IV Região cumpriram penas de prisão maior na cadeia da Machava. Os que sobreviveram saíram depois de longos anos de prisão.
Até ao 25 de abril, muitos dos presos políticos, sobretudo os líderes da IV Região, haviam sido soltos. Apesar de não terem mantido contactos com a Frente de Libertação desde o encerramento da IV região, muitos antigos presos políticos mantiveram-se fieis à causa da libertação nacional. Quando se dá o 25 de Abril, Matias MBoa; Jossefate Machel; Rui Nogar; Malagatana Valente e José Craveirinha foram a Dar-es-Sallaam, a convite da Frente de Libertação. Foram recebidos pelos dirigentes máximos e instruídos a implantar a mensagem da Frente de Libertação em todo o território nacional, sobretudo na difícil cidade capital. Clika aqui para leres a entrevista a Malagatan Valente Ngwenya.
Grupo de ex-presos políticos na sua primeira visia
`FRELIMO em DAR-ES SALAAM

No seu regresso, estes antigos presos políticos engajaram-sena mobilização da juventude de Lourenço Marques em apoio à FRELIMO e à Independência Nacional através dos Grupos de Esclarecimento.
Foi através destes Grupos de Esclarecimento que a maioria da juventude de Moçambique conheceu o programa da FRELIMO. Muitos entregaram-se à causa da libertação com entusiasmo e contribuíram com tudo o que tinham ao seu dispor para difundir a mensagem da FRELIMO. Os que tinham viaturas, motorizadas, bicicletas, ou qualquer outro meio de transporte, punham-nos ao serviço da mobilização política.
Apadrinhado pelos camaradas António Sumbana e Matias MBoa, e apoiado no terreno por Ana Maria Akui, Ivete MBoa e outros, eu fui enquadrado nos Grupos de Esclarecimento assim que passei à disponibilidade e regressei a Lourenço Marques. Para mim os Grupos de Esclarecimento foram uma importante escola política.
O objectivo destes Grupos era o de mobilizar e esclarecer a população da região Sul sobre a Luta de Libertação Nacional. Visava também instalar a FRELIMO em todo o território nacional.Sendo eu conhecedor da realidade da Luta, da qual participei durante perto de três anos, era uma pessoa minimamente abalizada para cumprir essa tarefa. O meu foco cingia-se no esclarecimento e mobilização dos moçambicanos que ainda estavam do lado dos portugueses cumprindo o serviço militar obrigatório, vigiados e controlados pela PIDE. A PIDE sempre teve receio que houvesse deserções, como chegou a acontecer entre colegas meus que aderiram à FRELIMO em plena guerra Foi neste ambiente de total entrega da juventude para a causa da libertação nacional que se deram os acontecimentos do 7 de Setembro: o assalto à Rádio Clube e a tomada dos Aeroportos de Mavalane por colonos radicais anti-FRELIMO, e a resposta por parte do Grupo Galo da Mafalala. Nas linhas que se seguem, relato os detalhes dos dias tenebrosos que se seguiram àdos colonos reaccionários assinatura dos Acordos de Lusaka e o papel que o Grupo Galo da Mafalala teve na recuperação da Rádio Clube e para põr fim à rebelião reaccionária.


O INÍCIO DA OPERAÇÃO GALO; GABRIELA E A CORRIDA À MAFALALA.

Pela manhã do dia 8  o ambiente à minha volta era confuso. Não se tinha clareza do que estava a acontecer. A rádio Clube de Moçambique havia sido tomada pelos colonos. As mensagens confundiam tudo e todos. Em casa, eu não sabia o que fazer. Decidi ligar aos meus amigos e ninguém me conseguia explicar o que estava a acontecer. Optei por aguardar um pouco mais e e desenvolver um raciocínio mais acertado.Mas nada me impelia a tomar qualquer acção que não fosse no mínimo segura. Os Grupos de Esclarecimento de que fazia parte regiam-se por regras de conduta que não permitiam acções individuais e isoladas. A unidade era o princípio base, o pensamento comum e o consenso.
Era assim que pensávamos.


7 Setembro 1974 a multidão junto ao Rádio  Clube
Mantive a Rádio ligada, era importante manter-me informado da situação. O Aqui Moçambique Livre mexia comigo. Afinal de contas que Moçambique Livre é este que não faz parte da Nossa Luta, que surpresa é esta que nos tomou de repente, e o que fazer numa situação destas? Interroguei-me. Não tinha conhecimentos políticos que me permitissem entender tão profundamente a situação. O pouco que me havia sido dado a conhecer da independência da Rodésia parecia ser similar. colocando-me perante uma nova situação. Mas uma pergunta não queria se calar. E a FRELIMO, que lugar ocupa em tudo isto? Será esta a independência que se pretende que seja?
Em flash-back  veio me tudo à cabeça . Veio-me a Guerra Colonial na qual havia recentemente participado como Comando; vieram-me os assaltos às bases da guerrilha; os combates nas matas de, Cabo Delgado, Manica e Sofala e Tete, as minhas leituras dessa luta; o jornal a Voz da FRELIMO que trazíamos às escondidas durante os assaltos às bases da FRELIMO; o programa de rádio do locutor Rafael Maguni que eu ouvia diariamente, às escondidas, no quartel. o Golpe de Estado em Portugal . Tudo isto me veio à cabeça e começou a desenhar-se algum quadro da situação. mas ainda era impreciso.
Às 10 hora da manhã, oiço a campainha de minha casa tocar. Com todo o cuidado fui espreitar pelo visor de segurança. A Gabriela, a minha parceira Gabi, vinha com um ar muito preocupado. Ainda do lado de fora, ela tirou da sacola duas facas de cozinha. O que significa isso? Perguntei, e ela respondeu-me nestes termos: O que fazes em casa numa altura destas Aurélio? O que está acontecer não mexe contigo? Todos os indícios e com a tomada da Rádio Clube, cheira-me a tentativa de Golpe de Estado como aconteceu na Rodésia e não podemos ficar aqui parados, temos de fazer alguma coisa. Perguntei-lhe: O que devíamos fazer, porque achava mesmo os Camaradas dos Grupos de Esclarecimento da FRELIMO também deviam estar confusos, desorganizados e sem orientação.
Talvez seja verdade, disse ela prontamente, mas se não os procurarmos, nada feito. Aqui parados não vamos. Aqui parados não vamos 
a lado nenhum. Veste alguma coisa simples e vamos procurar os Camaradas e ver com eles o que fazer. Vamos no meu wolkswagen, o teu Mini dá muito nas vistas. Concordei e perguntei por onde devíamos começar. Diz tu, afinal quem é o Comando aqui? Eu ou tu? Quem sabe de guerras! Se for necessário vais adaptar esses conhecimentos para o momento, tens os teus antigos colegas, o Elísio, o Mata, o Adamo, o João Victor, o Matola e outros. Se falares com eles talvez consigas convencê-los a pensar. Pelo menos!
Convencido, partimos primeiro para a casa de António Sumbana, no Xamanine, com planos de depois seguir à Matola para a casa de Matias MBoa. Ao chegarmos a Xipamanine, na zona do Silex, vimos que a casa de António Sunbana tinha sido tinha sido invadida pelos Dragões da Morte e estava abandonada. A casa teria sido saqueada por completo pelas forças paramilitares dos colonos radicais que certamente procuravam indícios de ligação de Sumbana à FRELIMO, pois estavam espalhados pelo chão os panfletos das nossas Campanhas de Esclarecimento (produzidos en stencil), as bandeiras da FRELIMO, fotografias mostrando ilustrando momentos da Luta de Libertação e seus líderes, desde Samora machel, Marcelino dos Santos, Joaquim Chissano, Armando Guebuza e outros. À volta estavam também quadros de pintura do Fernando Sumbana. Fechámos a porta para que a casa não ficasse à mercê de outros demandos da reacção colona e seguimos para Matola à procura de Matias MBOA.


Fernando Sumbana e Joaquim Chissano
Na casa de Matias encontrámos a esposa Camarada Ivete, que nos aconselhou a aguardar um pouco mais porque, segundo ela, de Nachingwea viriam a curto prazo orientações sobre o que fazer perante a situação.
A Gabriela perguntou-me se eu sabia chegar a casa de Nuno e Teresa Galiano na Mafalala. Ela pensava que ali teríamos alguma informação, uma vez que havíamos tido algumas reuniões na casa daqueles militantes. Eu conhecia muito bem a Mafalala e a casa de Nuno Caliano da Silva, pois era ali perto onde o Gilberto e o Isías Tembe treinavam pesos e alteres. Dirigimos-nos para lá de imediato.
Chegados à casa de Nuno Galiano da Silva , dava para se ouvir as discussões em voz alta. Batemos à porta até que nos atenderam. Ainda com algum receio de incomodar tão acesa discussão, cumprimentámos a todos, e a camarada Teresa Caliano da Silva veio ter connosco. Dissemos à Teresa que vínhamos saber se eles tinham alguma informação ou orientação sobre o que se passava na cidade de Lourenço Marques.
Aida bem que vieram, respondeu-nos a Teresa. Esta barulheira toda é mesmo por isso. Estamos lá dentro com o Amaral Matos, Miguel da Mata, Betinho Chissano e Orlando Machel. E como dá para notar, estão a barafustar em voz alta zangados com a chefia em Nachhingwea porque não está chegar nenhuma orientação. 
Quando entrámos, a sala tinha cerca de 8 pessoas em aturada discussão. Eles só pararam de discutir quando a Teresa disse em voz alta: Podemos interromper um pouco e receber este casal de militantes que vem à procura de orientações? Ao que Amaral Matos respondeu: Que orientação se pode dar Teresa? Nós também estamps à espera e nada!
A Teresa sugeriu que nos envolvessem nas discussões pois podíamos ter ideias que pudessem ajudar. Coube a Amaral Matos, o mais velho e mais experiente dos presentes, colocar-nos ao corrente da situação. Foi o meu primeiro encontro com Amaral Matos.
Logo que ficámos a saber do ponto da situação, a Gabriela apresentou-me como alguém que podia dar uma ideia de partida para que começássemos a pensar em estratégias de respostas com alguma perspectiva militar. Algo como protecção e vigilância, sobretudo dos bairros, Achei aquela uma boa ideia e peguei num mapa da cidade que havia na parede da sala e coloquei-o no chão. Chamei a atenção de todos e disse, mais ou menos nos seguintes termos:
Estamos no centro de Lourenço Marques, onde tudo acontece. Não temos ainda a noção da grandeza dos planos da reacção dos colonos. Mas podemos desde já temer pelo pior e por isso temos de pensar em planos de curto e médio prazo. UNIDADE, esta deverá ser a nossa primeira arma. Todos nós somos membros dos Grupos de Esclarecimento e sabemos que o primeiro tema que temos transmitido à população é que a FRELIMO chegou a esta fase graças à unidade. A independência é o passo seguinte, custe o que custar. Por isso o nosso trabalho de mobilização deverá ser sempre na perspectiva de que a FRELIMO vem com a Independência e que os Acordos de Lusaka são o caminho para essa meta. Defender os Acordos de Lusaka, pois é o documento que liga a FRELIMO ao Governo Português e Moçambique rumo à Independência. É necessário combater a ideia de que possa existir outra forma de independência que não seja a que foi negociada e assinada com o Governo Português em Lusaka ontem. E isso passa por nos unirmos e continuar a veicular as mensagens da FRELIMO contidas no nosso plano de trabalho nos Grupos de Esclarecimento.
Acrescentei ainda que quando eu e a Gabriela vínhamos a caminho dali, vimos muitos jovens gesticulando e falando alto. Para mim aquilo deu a entender que os jovens queriam partir para a acção, o que seria uma luta desigual. Eles iriam desenvolver acções sem qualquer estrutura organizativa. Sugeri que naquele momento deveríamos pensar em conjunto e definir uma estratégia correcta, convidando os jovens a participar.
Nuno Caliano reagiu de imediato. e disse: Devemos fazer isso. Eu conheço estes miúdos. E com os físicos musculados vão de certeza avançar contra os colonos e não é isso que queremos. Vamos convidá-los e enquadrá-los. São bons miúdos e têm muito respeito. Devemos orientá-los.
Em pouco tempo juntamos cerca de 60 jovens. Amaral Matos, que ficou nosso chefe dada a sua idade e experiência de militância, deu-me a honra de orientar a reunião e passar os resultados do nosso primeiro encontro aos jovens da Mafalala.
Dirigi-me aos jovens nos seguintes termos: Obrigado por aceitarem participar neste encontro. Vocês são muito importantes para a nossa luta. Mas a vossa juventude vai ser bem aproveitada se trabalharmos em conjunto e tivermos o apoio dos nossos mais velhos que já passaram por muitas situações e têm muita experiência. Eu, por exemplo, fui da Tropas Especiais Portuguesas. Fui Comando, e estou aqui porque quero o mesmo que vocês --a independência de Moçambique. Se sou simpatizante ou militante da FRELIMO, não importa. O mais importante é que estou com a luta da FRELIMO que levou muitas das nossas famílias a serem presas pela PIDE. Até ontem, data da assinatura dos Acordos de Lusaka na Zâmbia, tudo corria bem. Mas hoje, como estamos a ver, a situação está confusa. O que fazer numa situação destas? Unirmo-nos. Pensar em conjunto e só fazer o que o grupo decidir.. Entendem? Esta é a razão porque queremos que vocês façam parte deste grupo e tragam ideias. A partir deste momento até outra orientação superior que venha do nosso Movimento de Libertação, a FRELIMO, esta casa passa a ser a nossa Base, o nosso Comité de Coordenação.
Perante a boa reacção que vi no semblante da maioria dos jovens, passei a palavra ao chefe Amaral Matos. Este avançou e disse: Cada um de nós deverá receber uma tarefa concreta. Vamos começar por criar uma sala de recolha de informação que vem das populações sobre o que sabem nas casas onde trabalham, nas empresas, no cais e caminhos-de-ferro, nos quartéis, nas farmas e outros lugares. Com esse nível de informação estaremos sempre adiantados em relação ao nosso inimigo.
Betinho Chissano ofereceu-se para coordenar o sector de recolha de informações. De imediato algins presentes ofereceram-se para trazer máquinas de escrever, papel e químico. A casa deixou de ser de Nuno e Teresa Caliano da Silva, e passou a ser uma Base. Para nós era a base do povo preparando-se para resistir a tudo e assegurar o apoio  para a retomada da Rádio Clube e acabar com a reacção colona. A Teresa Caliano organizou um grupo de mulheres que passou para a cozinha para garantir o apoio alimentar ao grupo. Os encontros dos vários militantes àquela que veio a ser a Base Galo passaram a ser frequentes. e era necessário que todos se alimentasse.
Um dado curioso, que Teresa Caliano conta em detalhe no seu depoimento é que o 7 de Setembro é data do seu aniversario natalício. Ela havia recebido vários alimentos para a ocasião. Aquele que seria o banquete para o seu aniversário com familiares e amigos acabou sendo a primeira refeiçãp das pessoas que afluíam à sua casa.
Eu, Amaral Matos e Miguel da Mata ficámos com a missão de desenvolver e coordenar os Comités Operativos circunvizinhos no sentido de assegurar que cada bairro tivesse correspondência com o Comité de Coordenação na Mafalala e recebesse instruções na primeira fase, de quatro em quatro horas, e depois, de duas em duas horas em casos de emergência.


Aspecto parcial do Bairro da Mafalala em Maputo
Na Matola, a reacção tinha sólida adesão de colonos fortemente armados. No bairro do Infulene os Fuzileiros encarregavam-se de ser a força de pressão e massacre a favor da reacção. Em Boane a 
utilização fácil dos efectivos do Exército aí estacionados, era já uma realidade. Na Ponta do Ouro, Bela Vista e Catembe já se verificava a infiltração de forças de Boers civis vindas da África do Sul.
A Gabriela e o Luís Soares, por serem brancos, avançaram com outros companheiros para as regiões da Catembe, Bela Vista e Ponta do Ouro para colher in loco as informações e dar, com reegularidade, dados estratégicos importantes. Nós recebíamos estas informações das nossas células e assim pudemos orientar as populações de modo a evitar confrontos que nos fossem desfavoráveis.

Na primeira sessão do nosso Comité de Coordenação, concluimos com bastante interesse que as células dos bairros começavam a organizar-se e o fluxo de informação que chegava com regularidade ao Comité de Coordenação da Mafalala dava-nos o real ponto e situação e o nível de engajamento dos vários sectores da população.

DA MOVIMENTAÇÃO MILITAR À GREVE SILENCIOSA
Local onde começou o 7 de Setembro de 1974
A reacção colona movimentava-se a seu belo prazer pela cidade, exibindo a Bandeira Portuguesa e mostrando com as mãos o "V" da Victória, e buzinando em demonstração de força com a violência que era visível a olho nu. Perante aquela situação, e para evitar uma violência descontrolada, o Comité de Coordenação da Mafalala decidiu sob a minha proposta declarar uma Greve Silenciosa com o objectivo de evitar o contacto da população com a reacção. O plano visava igualmente reduzir o poder da reacção colona, retirando a força do trabalho, paralisando assim toda a actividade comercial e industrial, sobretudo no cais e caminho-de-ferro.

No dia 9 de Setmbro a nossa base em Mafalala determinou uma a nossa base em Mafalala determinou uma Greve Geral Silenciosa. O objectivo da greve era evitar mais contacto entre a nossa população e os colonos revoltosos. Esta orientação surgiu de uma conversa entre mim e o chefe Amaral Matos.
-- Chefe Amaral, temos que adoptar uma nova estratégia. Há uma grande mistura de indivíduos que vão criando dificuldades de controlar os acessos aos bairros. Há problemas de infiltração que temos de estancar já.
--Como assim? 
-- Esta circulação de elementos da FICO e dos Dragões da Morte com atitudes provocatórias vai dar problemas. Até aqui a população tem acatado as nossas orientações, mas mais hora menos hora vai dar bota.
-- O que fazer?
-- Simples. Temos que retirar a  população dos polos de força dos colonos e das unidades de produção. Temos que retirar a mão de obra das empresas, fábricas, do Porto e dos Caminhos-de-Ferro. Uma greve silenciosa pode resultar. Mantemos a população em casa. Evitamos confrontações e mantemo-nos em alerta máximo. Vamos informar a população para não provocar nem ligar às provocações, e manterem-se atentos às orientações dos Comités em cada bairro.
-- Achas que vai resultar? E se a população não aderir por medo?
-- Se não experimentarmos não vamos saber Chefe.
-- OK. Mas como é que vamos conseguir informar a todos?
-- Simples. Daqui a uma hora temos a reunião dos comités.. Estamos quase a atingir as quatro horas desde a última reunião. Toda a chefia estará aqui e cada um terá a missão de fazer chegar a orientação. Temos de explicar bem o que pretendemos atingir, e o porquê desta decisão.
-- Proponho ainda um PLANO B que deverá complementar a orientação, destacando pessoas a partir das quatro da manhãpara as entradas e saídas dos bairros com o objectivo de reforçar a informação a populaçãoque não tiver recebido a orientação ou que não tenha entendido os objectivos da Greve Silenciosa.
-- Deixe connosco Chefe, vai correr bem e vai dar resultados positivos.


9 de Setembro 1974, greve de estivadores do porto de Lourenço Marques
À hora habitual da reunião dos comités de resistência da Mafalala, informamos a todos os presentes que a nossa missão para as quatro horas seguintes seria a implementação de uma nova estratégica para o melhor controlo da população.
-- Vamos declarar junto da nossa população em cada um dos nossos bairros uma greve silenciosa. A informação deverá ser o mais secreta possível. Não se esqueçam que há informadores da PIDE em todo o lado. Esta greve é de extrema importância para enfraquecer o poder dos colonos e reforçar a nossa capacidade de defesa. Ninguém deve ir trabalhar. Mas não devem provocar os colonos. Não se devem manifestar nem mesmo a favor da FRELIMO. Devemos esconder as bandeiras, E nada de sinais de vitória. A Palavra de Ordem  é Greve Silenciosa. Todos os militantes no activo e na disponibilidade em cada bairro devem a partir desta noite treinar a população para a auto-defesa. Os jovens devem aprender como informa rapidamente sobre a presença dos colonos para que os adultos se posicionem em defesa de cada bairro. As poucas armas capturadas aos colonos e sob o controlo em cada Comité devem ser manuseadas por quem sabe e obedecendo à Chefia do Comité. Não podemos perder a iniciativa e o controlo da população. A partir das 4 da manhã devemos completar a orientação da greve em todos os becos dos nossos bairros. Ninguém deve ir ao trabalho.
Pela madrugada do mesmo dia, as nossas equipas bem organizadas posicionaram-se em todas as entradas e saídas dos subúrbios, com o objectivo de transmitir aos que não haviam recebidoa informação sobre a greve para voltarem às suas casas e ficar em silêncio absoluto. Ninguém devia fazer qualquer manifestação de apoio à FRELIMO para evitar o confronto com os colonos radicais.

Becos no Bairro da MAFALALA
Às 8 horas da manhã o chefe Amaral Matos estava muito preocupado. Enviou um grupo aos prédios mais altos da zona que permitisse ver o Porto de Lourenço Marques. O Porto era o nosso melhor sinal
de que a greve silenciosa tinha ou não resultado. Todos os guindastes estavam parados. Não havia movimentos no porto. Desde maquinistas, estivadores, carregadores e outros, não haviam ido trabalhar. A greve silenciosa  havia sido um sucesso. As lojas na sua maioria estavam encerradas. As fábricas ficaram se mão de obra, acabando por fechar as portas. Empregados de mesa, mainatos e outros serviçais não se apresentaram aos restaurantes e residenciais da cidade de cimento. Ninguém chegou ao trabalho. A população estava concentrada em suas casa. A orientação foi rigorosamente cumprida pela maioria da população.
Eu informei ao Chefe Amaral Matos que a greve  tinha sido uma vitória total, mas dali para a frente tudo podia acontecer. Decidimos que a reunião seguinte dos Comités deveria incluir na agenda a preparação da população de cada bairro para montar barricadas e prevenir-se do que eu antevia que viria a acontecer. De certeza que os colonos haviam de atacar com fúria acrescida nas horas seguintes. Viriam com tudo. Receávamos o pior, Na reunião seguinte, precisamente às 10 horas, explicamos aos representantes de cada Comité de Bairro, os passos a seguir:
-- Camaradas, como viram a greve silenciosa foi um sucesso. Retiramos a mão de obra aos colonos. Mas eles vão reagir nas próximas horas. ainda devem estar a procurar entender o que aconteceu. Os informadores da PIDE já devem ter explicado bem o que aconteceu e devem estar a passar para eles as nossas fragilidades, os melhores acessos de cada bairro, quem chefia cada Comité e como estamos organizados. A Mafalala está sujeita a tudo a partir de agora, o que significa as orientações que vamos passar são para execução imediata. 


Uma das ruas de Mafalala
Mafalala tem alguns acessos largos  e de difícil protecção. Mas teremos que conviver com isso e cumprir a missão como a vamos definir. Barricadas é a palavra de ordem. Devemos usar tudo o que tivermos ao nosso alcance para barricar a entrada dos colonos. à distância devemos colocar postos de controlo antes das zonas habitacionais. Troncos, barrotes, pneus velhos, ferro velho, carcaças de viaturas velhas, arame farpado, Usarem os jovens para com toda a rapidez correrem para os Comités e informar em caso de presença dos colonos, e informarem-nos como é que os colonos se apresentam e que tipo de meios de transporte usam, e que tipos de arma trazem.
-- Proteger mulheres e crianças em primeiro lugar. Juntar nos becos todo o tipo de instrumento para alvejar os infiltrados: pedras e paus. Evitem que eles se aproximem . Ataquem o mais longe possível das casas. Afugemtem-nos muito anos. Quem entrar por mal, e isso vê-se logo, que não haja nenhuma hesitação ou indecisão. Pensem sempre que vêm armados e disparam sempre sem pensar duas vezes. Aos que conseguirem passar as barreiras que vamos colocar, orientem a população para usar todos os meios ao seu alcance para os travar.
A reacção dos colonos não se fez tardar. Os bairros passaram a ser o alvo da fúria dos colonos. Chegando de arma em punho em táxis, carrinhas e motorizadas, os colonos radicais disparavam indiscriminadamente, ferindo e matando um pouco por todos os lados.
Por volta das 11 horas, os Dragões da Morte avançaram pelos bairros adentro em motorizadas. Os FICO entraram de táxis e carros privados. Todos romperam as barricadas, disparando indiscriminadamente. Aconteceu como previa, uma verdadeira batalha campal no centro de Xipamanine. Houve combates e com muito sangue e mortes da nossa parte no Infulene devido à acção assassina dos Fuzileiros que disparavam contra a população indiscriminadamente, cmo nos relatou com todo o detalhr o nosso Camarada Pedro Bule que comandava e coordenava o Comité do Infulene.
Na Mafalala, que também passou a ser um dos alvos doas ataques endiabrados dos colonos, iniciamos um amplo plano de preparação dos jovens e a coordenação de operações de resistência e de defesa contra as investidas do inimigo. A casa da família Caliano da Silva passou a ser o Quartel e a Base de operações combinadas para onde designamos o Camarada Manuel Falcão para assumir o processo de organização de um armeiro. Os nossos militantes apreenderam muitas armas dos reaccionários, e iam deixá-las no nosso Comité de Coordenação. As reuniões com os enviados às várias células multiplicavam-se. E as decisões passavam a ser tomadas em duas horas. As orientações começavam a ter um caris marcadamente militar. A população estava a ser alvo de ataques a tiros de colonos que disparavam a partir das suas viaturas e motorizadas, pelo que era urgente uma acção decisiva da nossa parte.
Livraria Académica em Lourenço Marques
No meio dessa decisão difícil e confusa recebemos muitos Democratas vindos da Cidade do Cimento à procura de protecção pois muitos eram perseguidos e ameaçados pelos Dragões da Morte. Sabendo da importância do nosso Comité de Coordenação, traziam ajuda ao nosso Grupo como resmas de papel, canetas, máquinas de stencil para impressões de panfletos, combustível, viaturas, bicicletas, e produtos alimentares como farinha, arroz, pão e outros. Recordo-me de pessoas como Eugénio de Lemos e sua esposa Ana Margarida, o Ernesto Neves e família da Papelaria Académica, o Reis e Bastos, e muitos outros que nos ajudaram imenso na Mafalala.
No processo de implantação das barricadas e do apoio aos Democratas e outras vítimas dos colonos radicais vindos da Cidade do Cimento, esquecemos-nos de reforçar a segurança da nossa base. Rsta importante constatação foi-me alertada por Amaral Matos e Gabriela Valério. Era importante que a reacção colona não soubesse da nossa existência para não sermos imediatamente silenciados em alguma operação de grande porte. A Gabriela informou-nos que estávamos infiltrados. Que havia informadores da PIDE no bairro da Mafalala e que por essa altura a reacção colona já devia saber o que se estava a passar na Mafalala. 
Já temos pessoas que vêm chegando de muitos lados procurando guarida e segurança aqui, mas nada nos garante que alguns não sejam infiltrados, concluiu ela.
De facto, havíamos-nos descuidado da nossa própria segurança, a segurança da nossa ase. Dei razão à Gabriela e sugeri que laçássemos um plano de patrulhamento e a introdução de umasenha e contra-senha para evitar infiltrações. O Betinho Chissano assumiu de imediato essa missão passando a gerir a periodicidade das alterações da senha e contra senha o que mudou radicalmente a situação e garantir um maior controlo das movimentações estranhas no nosso espaço operativo. O plano de preparação dos jovens para uma permanecente vigilância e para a autodefesa foi imediatamente accionado, com a participação de Ex-Comandos e militares de diferentes armas que se apresentaram em apoio à nossa causa, envolvendo-se sobretudo na transmissão de técnicas e práticas de defesa do Bairro da Mafalala.
Isaías Tembe, sem qualquer conhecimento militar mas pela sua capacidade física de se impor respeito, foi o primeiro a ser preparado para fazer patrulhamento e ajudar nos treinos dos outros. Manuel Falcão, ainda no activo no exército colonial como Furriel, foi indicado por mim para comandar as operações de patrulhamento.
Dos Quarteis da cidade de Lourenço Marques e de Boane, os nossos companheiros militares foram tratando de desviar algum armamento para a nossa Base. Recebemos armas automáticas G3 com munições suficientes, espingardas Mauser, morteiros com as respectivas granadas, bazucas completas, dilagramas, granadas de mão defensivas e ofensivas.

IDEIAS e PLANOS PARA SILENCIAR A RÁDIO CLUBE 



Ao longo dos três dias que se seguiram à tomada da Rádio Clube e dos aeroportos pelos colonos radicais em Lourenço Marques, a liderança do nosso Grupo na base Mafalala foi avaliando as diferentes propostas de alguns especialistas militares que se juntaram à nossa causa. Muitos haviam oferecido a sua disponibilidade para entrar inclusive em operações especiais de forma a interromper a continuidade de emissão da Rádio Clube. Alguns eram Comandos, pessoal da Engenharia, alguns Oficiais e Sargentos.
Para nós era imperioso silenciar a Rádio para evitar a fúria popular, que já se fazia sentir nos bairros e avançava gradualmente para a Cidade de Cimento. As emissões do Movimento Moçambique Livre , na voz do locutor Manuel, soavam aos ouvidos da população como uma grande traição. Soavam como um golpe à tão esperada independência garantida nos Acordos de Lusaka. A fúria popular crescia e descia em direcção ao centro da cidade, deixando para trás grandes destruições. Era preciso retomar a Rádio Clube de modo a evitar que as populações entrassem em choque com os colonos que se haviam aglomerado em frente ao edifício da Rádio Clube, Praça Mouzinho de Albuquerque, Câmara de Lourenço Marques e um pouco por toda a Cidade de Cimento.
Avaliadas as diferentes possibilidades que pudessem dar resultados utilizando o pouco e inadequado armamento e equipamento militar de que dispúnhamos, equacionámos três operações.
A primeira consistia em sabotar o Posto de Transformação (PT) que fornecia electricidade à Rádio Clube de Moçambique, com o apoio dos SMAE -- Serviços Municipalizados de Água e Electricidade. 
A segunda operação consistia em conjugar a primeira operação de sabotagem do PT com a eliminação das Tropas Especiais posicionadas no patamar da Rádio Clube e bem visíveis pelo Jardim Vasco da Gama (actual Jardim Tunduru), com recurso a armas de precisão em nosso poder. 
A última operação seria o lançamento de granadas de morteiro, de bazuca e dilagramas à cúpula da Rádio Clube e em especial na direcção dos estúdios, a partir de terraços de edifícios nas imediações. 


O Edifício da Rádio Clube visto do jardim Vasco da Gama
Esta última operação era motivada pela posse de um pequeno arsenal e disponibilidade de apoio demonstrada por alguns Comandos (antigos colegas meus), usando armas de precisão para anular e desbaratar a forte concentração de soldados em redor e interior da Rádio Clube de Moçambique.
Ao Miguel da Mata conhecido por Mamarracho, coube assumir a coordenação da primeira operação -- o corte de electricidade com o apoio de Robert Wilson, um amigo e funcionário do SMAE. Quando Miguel e Wilson se preparavam para pôr a operação de sabotagem em curso, eis que ouvimos da Rádio que o nosso plano havia sido detectado. O locutor Manuel disse que a Rádio estava a ser alvo de uma acção de sabotagem que consistia em cortar o fornecimento de electricidade.
Apanhados de surpresa , e perante três operações que á estavam em curso, sobretudo a primeira que esperávamos que levasse apenas 15 minutos, não nos restou outra opção senão abortar tudo.
De imediato, três grupos avançaram para o ponto da primeira operação. Coube a mim ir desviar o Miguel da Mata do perigo de ser apanhado pelos Dragões da Morte. Avancei na minha viatura para a casa da irmã do Miguel, que ficava defronte à antiga igreja da Munhuana, pois seria de lá que partiria a operação de sabotagem. Rezei para que ele ainda lá estivvesse. Cheguei a tempo e levei-o para a casa do nosso camarada Chaúque, bem escondido no Minkaajduine, entre o bairro indígena e o bairro Xipamanine. O Gilberto António avançou para as imediações do jardim Vasco da Gama para abortar a operação dos Comandos. Mais fácil foi parar o avanço dos homens dos morteiros e bazucas pois ainda não haviam partido da base da Mafalala.
Conseguimos abortar a tripla operação que nos levou muito templo a planear e a estabelecer o respectivo plano operacional. Até hoje não me sai da cabeça que Zita, informador da PIDE e outros, informaram a reacção colona sobre os nossos planos. Mas continuo a pensar que mesmo assim eles nunca chegaram a conhecer as outras duas pontas da operação, a dos morteiros  e dos atiradores especiais. De qualquer forma, abortámos todas e o resultado posterior indica que foi uma decisão correcta.

A Base Galo e os Detalhes da Operação: Quina Lima no Quartel General 

Francisco Walter de Lima, conhecido carinhosamente por Quina Lima, decidiu ir ao Quartel General para exigir que o Exército Português tomasse as melhores medidas para evitar um banho de sangue, exigindo que o Comando Territorial do Sul (CTS) estabelecesse uma agenda de conversações com o Grupo da Mafalala, pois este Grupo estava organizado para dar suporte à população e evitar desmandos.


1965, Quartel General em Lourenço Marques
Chegado aos portões do Quartel General, Quina pediu para falar com o comandante do exército. Quero falar com o Comandante, agora. O soldado de sentinela disse que não era possível, que ele teria de pedir audiência e com antecedência. Quina insistiu: Tem de ser agora, porque é muito importante. O soldado de sentinela recusou: Lamento senhor, mas não vai dar e não pode ficar aqui. De repente o Quina avançou para os portões, sacudiu-os gritando bem alto: " quero falar com o Comandante do Exército, AGORA, quero falar com o Comandante, se não me ouvirem Lourenço Marques vai pegar fogo. Falem com a Mafalala, é urgente!.
O soldado de sentinela decidiu pegar-lhe num braço de forma agressiva e levou-o para o interior do Quartel, provavelmente para o prender e aguardar por instruções. Perante tanta barulheira, o Coronel Nuno de Melo Egídio decidiu então falar com o Quina. Então, diga lá,  que força é essa que vai incendiar a cidade? Quina disse-lhe: No Bairro da Mafalala existe um Comité de Resistência bem organizado e bem ramificado pelos arredores da cidade até à Ponta do Oura. Coordenam-se bem e os resultados são muito bons. Eles conseguem ter a população sob controlo e foi de lá que partiram as orientações da Greve Silenciosa que resultou em cheio. Eles podem ser um importante apoio se vocês derem uma ajuda. Já morreu gente a mais, continua a morrer gente inocente e indefesa.
Eo que estão a planear? -- Perguntou o Comandante.
Não lhe posso passar segredos, mas posso adiantar que para as operações que estão a ser preparadas será utilizado armamento inadequado e isso não vai ser bom.   Respondeu Quina, e acrescentou: A operação para destruir a central que fornece energia à Rádio Clube se não tivesse sido abortada teria sido de grande vulto e com consequências.
-- Ainda não me convenceu. Dê-me mais detalhes -- atalhou o Comandante.
-- Atiradores Especiais, unidades operativas de pequeno porte e de fácil movimentação, formados por ex. Comandantes do Exército e de origem moçambicana , vão, a curto prazo, executar operações de guerrilha urbana -- disse Quina. -- A direcção do Comité da Mafalala pretende cooperar, mas se os demandos do Exército continuarem Vossa Excelência vai perder o controlo total da situação.
-- Dê-me uma ideia do que está a dizer sobres os demandos do Exército -- volveu o Comandante.
-- Os Fuzileiros no Infulene estão a matar indiscriminadamente. A Polícia Militar está do da reacção colona. Os Quarteis estão a fornecer armas à reacção através de oficiais que aderiram ao Movimento Moçambique Livre. Agentes da PIDE/DGS estão a dar cobertura infiltrando-se na Mafalala e arredores e isso não vai ser bom.


 O Comandante do Exército olhou para Quina e disse: Meu caro, entenda muito bem o que lhe vou dizer. Temos que recuperar a Rádio Clube de Moçambique intacta de forma a podermos utilizá-la e acabar com a desinformação que está a ocorrer. Se asua gente avançar por aí, vão piorar a situação aí é que não vamos conseguir mesmo nada. Falei com o General Spínola sobre a situação aqui e ele acaba de enviar dois emissários. Vamos aguardar mais uns dias.
-- Comandante, cada dia que passa a situação vai piorando. Estamos perante um barril de pólvora que pela certa vai explodir e esses emissário não chegarão a tempo de ajudar em nada -- volveu Quina, e acrescentou -- receba pelo menos uma delegação do  Comité de Resistência da Mafalala. Eu posso garantir que eles vão aceitar desde que Vossa Excelência garanta a necessária segurança.
O Coronel Melo Egídio finalmente concordou e aceitou receber uma delegação da Mafalala. Chegado à base da Mafalala, Quina disse-nos que havia convencido o exército a receber-nos. Dirigindo-se a Amaral Matos, ele disse:
Chefe Amaral Matos, vai-me desculpar, arrisquei e tomei eu mesmo a iniciativa, já não aguentava mais ver tanta injustiça, a morte de tanta gente indefesa e eles ali com meios necessários para pôr fim a esta situação. Amanhã à 10 horas teremos de lá estar com uma delegação capaz de os convencer a ajudar-nos a controlar a situação. Nós estamos numa situação de resistência e sem meios para enfrentar esta crescente onda de infiltrações dos Dragões da Morte que já se pintam de preto para nos confundir. A PIDE/DGS cada vêz infiltra mais informadores. Não podemos perder o controlo, chefe,
-- Muito bem -- reagiu Amaral Matos -- vamos dialogar. Mas atenção, não podemos capitular. Isto até pode ser uma cilada deles. Ficam a saber tudo sobre nós e exploram as nossas fraquezas. Vamos ouvir e só decidimos sempre que houver consenso entre todos os membros da Delegação. Entendido?
Todos concordaram. Nessa ocasião, e porque o nosso núcleo duro já estava alargado a outros líderes dos bairros circunvizinhos, passei a integrar, por orientação de Amaral Matos, a delegação do comité de coordenação da Mafalala. Esta delegação incluiu o próprio Amaral Matos, Betinho Chissano, Orlando Machel e Quina Lima. Fomos para o Quartel General do Exército para apresentar um conjunto de propostas sobre a melhoe forma de recuperar a Rádio Clube de Moçambique.


Orlando Machel
Partimos da Mafalala no dia seguinte às 09h30 da manhã. Dentro da viatura e prontos para partir, o Betinho Chissano sugeriu que deixássemos orientações para que o comité passasse nas próximas reuniões às outra células. Pelo menos uma senha que todos fiquem a saber caso tudo corra bem e haja a oportunidade de se difundir pela Rádio, Amaral Matos concordou e decidimos criar uma senha.
Já que começaste, dá lá uma ideia -- disse o chefe Amaral 
-- GALO, GALO -- respondeu o Betinho
-- Assim em seco achas que se vai entender alguma coisa, ou devíamos acrescentar mais uma coisa? perguntou o Amaral.
-- AMANHECEU! sugeri.
Assim sim, faz sentido. A senha a ser enviada a todos os comités de coordenação e resistência está aprovada. ALO, GALO, AMANHECEU. Vamos embora e desejem-nos boa sorte e bom trabalho a todos -- sentenciou o Chefe Amaral.
Quando chegámos ao Quartel General, a sentinela já tinha orientações, e uma pequena comitiva de recepção aguardava-nos perante os olhares de outros militares de diferentes patentes como ar de quem não acreditava no que estava a ver e muito menos o que se iria realizar ali.Estava prestes a acontecer conversações para um entendimento.
O soldado de sentinela disse-nos: Por favor, por aqui, o Comandante aguarda-vos. Entrámos para uma sala com cadeiras e sofás de couro, com uma mesa ao fundo com um pequeno-almoço e um servente para prestar assistência.
--Olha lá, não é que esta gente adivinhou que não comemos há mais de 24 horas? quando eu lhe digo, Chefe, que eles têm espiões na Mafalala... -- eu disse, dirigindo-me ao Amaral Matos.
-- Não sejas pessimista Aurélio, vamos agir com naturalidade -- asseverou o Chefe.
-- Confiar é bom, mas desconfiar é melhor -- insisti.
-- Tens razão, confiar desconfiando -- volveu o Chefe
O Ajudante de Campo do Comandante, com galões de Major nos ombros, recebeu-nos com um sorriso largo. Cumprimentou a todos com a devida vénia e orientou-nos para um forte café da manhã para nos avivar as ideias. O Comandante já vos vai receber em 15 minutos. Enquanto isso um bom café vai fazer bem. Sirvam-se à vontade
Durante o café, o Chefe Amaral Matos, foi-nos orientando sobre a nossa postura na audiência. disse-nos quem deveria falar e em que momentos. Ouvir mais e falar pouco. Lembrem-se que na verdade nós buscamos mais suportes, mas, mas não é menos verdade que já demonstrámos que temos capacidade no terreno e é importante a nossa colaboração. Afinal quem tem o povo somos nós. Logo a seguir, o Major veio convidar-nos a seguirmos para a sala do Comandante: A reunião já vai começar. Por favor acompanhem-nos, disse-nos.
Prevíamos uma reunião alargada a diferentes patentes do Exército. Mas não foi o que aconteceu. O Comandante agiu com as maiores cautelas e decidiu reunir com a nossa delegação à porta fechada , para nossa alegria, pois já desconfiávamos de tudo e de todos. Tínhamos um medo infernal dos informadores que de imediato passariam dados e segredos da nossa reunião.
Depois de nos desejar boas-vindas ao quartel-General, o Comandante disse que a reunião seria restrita e seria uma consulta mútua e aberta.
-- Já tenho dados suficientes da vossa organização -- disse o Comandante, para nossa surpresa, --entendo que me vou reunir com verdadeiros representantes das populações de Lourenço Marques e arredores. A GREVE SILENCIOSA dos trabalhadores, sem agressões e sem manifestações, foi para mim um dado curioso e de grande impacto, que me fez pensar e pedir informações adicionais para entender melhor a vossa filosofia de acção. O senhor Lima foi um homem de coragem e conseguiu, com todas as dificuldades que enfrentou, chegar a mim e transmitir com palavras curtas e directas a essência do vosso comité. Estou aberto a desenvolver esta reunião desde que o objectivo de recuperar a Rádio Clube intacta também esteja na vossa agenda, pois sem o mesmo instrumento que está a provocar tanta desinformação nas nossas mãos não chegaremos a lado nenhum. Fui informado da abortada tentativa de calar a Rádio Clube destruindo o posto de transformação que fornece energia à Rádio. Ainda bem que abortaram a operação. Imaginem a repercussão que isso teria, os vossos atiradores e os Comandos posicionados no patamar exterior da Rádio, isso seria um caos de difícil controlo. Meu caro Amaral, o senhor é o mais velho nesta delegação. Sabe bem do que me refiro. Toda a ponderação é necessária a partir deste momento. O que me diz?

Manifestação junto à Rádio Clube

O Chefe Amaral, meio sem jeito, respondeu:
-- Excelência, nós somos um comité de coordenação. Mas, diga-se em abono da verdade, somos um comité de resistência   que tem usado todos os meios ao seu alcance para controlar a nossa população. Saiba Vossa Excelência que nós somos militantes e simpatizantes da FRELIMO e não escondemos isso. O recurso a armas de fogo, morteiros de pequena e médio alcance, e outras alternativas faz parte das exigências que cada fase da luta nos obriga a assumir e a seguir. Estamos a ser atacados nos nossos bairros por movimentos organizados e bem armados. A nossa população defende-se como pode e com os meios que tem à mão. A nossa população defende-se como pode e com os meios que tem à mão. A formação de barricadas de protecção foi orientada no sentido de se evitar que a população venha para a cidade de cimento participar em conflitos que não trarão qualquer benefício. Ao contrário do que acontece, somos atacados nas nossas próprias casas. aceitamos esta oportunidade porque achamos que juntos, poderemos encontrar soluções pelo menos para manter a solução controlada, porque o resto caberá ao Governo Português e à FRELIMO, força dos Acordos de Lusaka. A situação não pode sair fora do nosso controle. Temos de pôr fim à situação e é isso que pretendemos alcançar hoje com Vossa Excelência.
-- O pressuposto da recuperação intacta da Rádio Clube de Moçambique, está nos vossos planos? Não vamos ter, de repente, a surpresa de outra operação parecida com a da energia e atiradores? -- Perguntou o Comandante.
-- Do nosso lado pode ficar descansado o LeBon foi Comando, da 5ª Companhia, e ele coordena todos os planos operativos com outros companheiros seus, também ex-Comandos. O Alberto Chissano coordena as informações e  comunicações. Ele tem à sua responsabilidade o registo de informações que chegam de toda a região circunvizinha, incluindo as fronteiras com a África do Sul e Rodésia. O Miguel da Mata coordena todas as acções entre o nosso comité e os comités dos bairros.Como vê, a nossa organização tem uma metodologia de coordenação muito próxima da direcção e os nossos encontros de coordenação, pela gravidade da situação, passaram a acontecer de hora em hora.


5ª Companhia de Comandos em Montepuez
-- Diz que o senhor LeBon esteve em Tete? Perguntou o Comandante.
-- Sim, pertenci à 5ª Companhia de Comandos de Moçambique -- respondi. -- E conheci Vossa Excelência quando era o Comandante da ZOT, Zona Operacional de Tete, quando visitou a minha companhia, a Quinta, em Chitima. Eu até cantei no conjunto musical durante o jantar que lhe foi oferecido.
-- Pois é. O Major, meu Ajudante de Campo, é que o reconheceu e chamou-me a atenção -- disse o Comandante -- A mim nunca me enganou. Sabia que tinha alguma coisa que o ligava à FRELIMO. Não sabia como, mas naquela Companhia havia qualquer coisa esquisita, isso havia. Depois me explica isso. Agora preciso de si e sei que vai cumprir com disciplina militar bem rigorosa, sabe muito bem do que me refiro. Precisamos da Rádio de volta às nossas mãos para que possamos reconduzir esta calamidade. Não aguento mais esta confusão.
-- Senhor Comandante -- interrompeu Amaral Matos -- qualquer decisão, deverá ser endossada ao colectivo, para que para que a decisão seja de consenso.
-- Correcto, meu caro Amaral -- anuiu o Comandante -- enquanto isso vamos dar uma pausa e o Major vai acompanhar-vos para a messe de Oficiais. Daqui a cerca de 45 minutos ou a uma hora voltamos a reunir. Estarei em em contacto com Portugal para mais orientações e vou passar o resultado da nossa reunião.
Aproveitando a minha experiência militar, e o facto de me conhecer, o Comandante solicitou-me à parte. Ele queria enquadrar-me numa missão ao comando da Força Aérea baseada nos Aeroportos, a fim de preparar, com estes, uma unidade de intervenção para a tomada da Rádio Clube. Mas ele também notou que seria importante fazer uma última tentativa de conseguir que o General Spínola autorizasse o apoio do exército ao grupo da Mafalala.
Enquanto a nossa delegação conferenciava no Quartel General, da periferia de Lourenço Marques vinha uma multidão armada de azagaias, catanas,machados, correntes de ferro, com outros objectos com vista de calar a Rádio Clube que profanava impropérios contra a FRELIMO e contra os Acordos de Lusaka. As pessoas vinham de Gaza, da Namaacha, de Boane e arredores da capital. 
A retomada da Rádio era urgente e a operação da sua retomada foi concebida da seguinte forma: Primeiro eu avançaria como uma escolta reduzida e penetraria na Rádio, e depois lançaria a senha GALO, GALO, AMANHECEU, nem que fosse por um mínimo de 10 minutos. Nessa altura os revoltosos já estavam à espera de alguém da FRELIMO  para travar a população que marchava sobre a cidade e que ia deixando para trás muita destruição. É preciso lembrar que havia muita fricção no seio da Forças Armadas portuguesas. Alguns sectores do exército haviam aderido ao Movimento Moçambique Livre, como foi o caso de Artilharia, uma parte de Engenharia, a Polícia Militar, os Fuzileiros Navais e alguns Comandos. Os Para-quedistas e a Força Aérea não aderiram. Bem como as companhias de Comandos que estavam ainda na cidade da Beira e a caminho de Lourenço Marques sob o comando do bem conhecido Comandante Belchior. Com estas Unidades que não aderiram à revolta dos colonos o Coronel Nuno de Melo Egídio contava para a retomadada Rádio e o controlo de Lourenço Marques.
Na reunião com o Coronel Melo Egídio no QG este disse-nos que havia duas companhias de para-quedistas no AB 8 no aeroporto
Entramos no Jeep. Disseram-me para os meu colegas ficarem por ali. Amaral Matos, Betinho Chissano, Quina Lima, Orlando Machel, Miguel da Mata, ficaram. Não comiam com regularidade  há três dias.
Fui bem escoltado para o  AB 8 no aeroporto para ir buscar as duas Companhias de para-quedistas que iriam assegurar a fase de consolidação da operação pela recuperação da Rádio Moçambique. No meio do caminho, na ponte, naquela ponteca que vai dar ao jardim zoológico, colonos revoltosos mandaram-nos parar e perguntaram: Onde é que vocês pensam que vãao? Meia volta! Eu disse: Eh pá, já entendi, vamos voltar.
Decidi abortar a missão incumbida pelo Coronel Melo Egídio de chegar ao AB 8 para evitar quaisquer interrupções ao Plano Central. As companhias de para-quedistas ficaram por lá.
À nossa chegada ao Quartel General, encontrámos o Coronel bem furioso pelo sucedido. Mas disse-me para me preparar de imediato para voltar a sair e desta vez sem qualquer demora, para me antecipar ao movimento da população rumo à Rádio Clube. Segundo as informaºões vindas dos helicópteros que sobrevoavam Lourenço Marques, a população avançava com tudo para o que ele já classificava de um provável e trste holocausto no centro da cidade.
Multidão de manifestantes junto ao Rádio Clube
-- Prepare-se para avançar e sem tempo para perder.
--Meu Coronel, concordo consigo, esta é a hora de lançar a senha e controlar tudo a partir da Rádio  Clube, mas dadas as circunstâncias, como hei-de sair e quem me vai escoltar e dar cobertura?
A situação estava feia. Passavam mais de cinco horas desde que afastámo-nos da população e do Comité da Mafalala. Os Comités sob a nossa coordenação já não recebiam orientações e com a população a caminho da Rádio e sem orientações, só a senha os poderia parar. A população começava a grande marcha em Gaza para Lourenço Marques, munida de catanas, machados, lanças, azagaias e paus.
O Coronel Melo Egídio disse-me: Não temos tempo a perder, os gaijos da Rádio Clube querem-vos lá, mas não vão todos, vais tu. Eu confirmei que ia imediatamente se tivesse uma protecção mínima. O Coronel  disse que eu havia de avançar com o que estava disponível. Uma viatura da Polícia de Segurança Pública (PSP) e dois Guarda- Costas especiais. O Comandante da PSP e o Comandante da Polícia Militar, e um condutor moçambicano que falasse a língua local para entender as minhas instruções em ronga ou changana por razões de segurança e para evitar os efeitos da infiltração.
Quando partimos para Lourenço Marque eu levei os Acordos de Lusaka impressos pelo Jornal Diário, por sugestão de Melo Egídio, e disse-me: Levas já os Acordos de Lusaka, e vê lá o que fazes porque eu não acredito que tu me consigas na primeira operação. Vais ver o que fazer porque na primeira não vais conseguir. E quero que tu me fujas dali inteiro. Quando tu sentires que já estão a desconfiar de ti, pira-te e vais ter ao Comando da Polícis de Segurança Pública. E ainda instruiu-me: Quando tu disseres VIVA À FRELIMO tens que dizer VIVA PORTUGAL também. Quando disseres VIVA SAMORA MACHEL tens que dizer VIVA SPÍNOLA também.
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De forma muito solene o Coronel Nuno Melo Egídio Comandante do CTS (Comando Territorial do Sul) pegou nas minha mãos e transmitiu-me as seguintes palavras:
Meu caro LeBon, a partir deste momento, o meu cérebro, os meus olhos, os meus braços e pernas estão personificados em ti, irei cumprir a minha parte da missão, o de assegurar que em cada etapa as minhas orientações ajudem ou facilitem esta Grande Operação em duas fases. Segue o nosso plano rigorosamente, e está tudo nas tuas mãos. Só tens entre oito a dez minutos para a Primeira da Operação no interior da Rádio, mas lança a senha de imediato porque a população tem que recuar para se evitar o holocausto. Se gastares mais tempo és um homem morto e não pode acontecer porque terás que cumprir a Segunda fase da Operação para consolidar o que planeámos -- recuperar por completo a Rádio Clube de Moçambique e gerir de lá todo o Sul de Moçambique em particular Lourenço Marques e arredores
A Base Galo e os Detalhes da Operação: Quina Lima no Quartel General 




Avançámos do Comando em direcção à Rua da Rádio. Quando chegámos ao Snack - Bar O Calhambeque, a menos de 100 metros da Rádio Clube, pedi para parar para avaliar aquela multidão e disse ao condutor em Ronga para que passasse a seguir as minhas instruções daquele momento em diante.
Por orientações via altifalantes que vinham da liderança Movimento Moçambique Livre na Rádio Clube a multidão começou a abrir alas. Era um barulho ensurdecedor. Alguns elementos, provavelmente por ordens da chefia orientava-nos a seguir, apontando para os portões da Rádio já abertos e com um forte dispositivo de segurança. Dos altifalantes podia ouvir: Deixem passar, deixem entrar.
Em língua Ronga orientei o condutor de nome Manhiça, a entrar pelo passeio o mais encostado possível para evitar que a viatura assediada pelos furiosos por ambos os lados da mesma, e que a nossa chegada fosse directamente ao primeiro portão da Rádio e de acesso directo ao edifício.
Um Português de origem Madeirense, perante o primeiro homem que me tentou barrar a entrada, colou-se de imediato à minha frente e guiou-me servindo de escudo de protecção até ao estúdio L1 da Rádio. A orientação era não perder muito tempo e lançar logo a senha para a população parar. Mas havia o perigo da nova senha ter sido mudada por outro qualquer. Felizmente que a nossa palavra ainda se mantinha forte. Os bairros acompanhavam detalhadamente a orientação que vinha da Mafalala. 

Locutor Manuel
Cheguei ao microfone onde estava o locutor Manuel , armado com pistolas em coldres de sovaqueira bem à mão de ser usada a qualquer momento. Ele fez-me perder algum tempo porque se queria justificar, dizendo: Meu filho, você nunca vai entender porque é que nós estamos aqui. Nunca ninguém vai entender porque é que estamos aqui. E eu respondi: está bem, mas eu tenho uma missão a cumprir. E ele volveu: eu sei qual é a tua missão. Entra lá. Eu não vou fazer-te perder mais tempo, meu jovem. Cumpre lá a tua missão e que Deus te Abençoe.
Quando entrei para o estúdio estava lá sentado o meu amigo Sebastião, mais conhecido por Sebas, ex-Comando da 3ª Companhia. O Sebas era Técnico de Som da Rádio, ao lado de Eduardo Pereira, um outro técnico bem conhecido. Entrei na cabine e lancei a senha. ALÔ GALO, ALÔ GALO AMANHECEU.
 Mas quando chegou o momento de dar vivas a situação aqueceu. Logo que eu disse: VIVA SAMORA MACHEL, os homens armados vindos do rés-do-chão gritaram: Fomos traídos! Eles já não ouviram o Viva o General Spínola, e só gritavam: Fomos Traídos! e começaram a disparar escadas acima, gritando:  Matem esse gaijo! Não quiseram escutar o resto. Começaram a gritar que tinham sido traídos, e a disparar ao longo das escadas de acesso ao primeiro piso onde me encontrava, pelo que tivemos de sair rapidamente. Fui puxado pela camisa pelos Comandantes da PSP e da PM e iniciámos, em passo de corrida, a fuga pelas traseiras da Rádio Clube, pulando o muro traseiro da Rádio, ainda em construção.
Apanhei uma boleia de um Peugeot 504 de uma família que passava por ali e conforme o plano, directo para o Comando da PSP. Aqui encontrei as duas Companhias de Paraquedistas  devidamente perfiladas e em prontidão combativa. Na primeira sala uma mão grita para mim e bem alto: Atenda o Coronel . E ao telefone disse-me, com um tom muito preocupado: Estás vivo, Comandante Galo, Graças a Deus! assim me baptizou o Coronel. Fala com os teus Companheiros, mas não escutes nada porque vais entrar de novo.
Aurélio LeBon, o Comandante Galo, nas instalações do RCM

Ao telefone Amaral Matos disse-me que eles ficaram a pensar que eu havia sido morto uma vez que a minha voz subitamente deixou de se ouvir na emissão da Rádio.
O Coronel Melo Egídio voltou  ao telefone e disse-me: As duas Companhia de paraquedistas estão aí. Comanda lá essa gente e avança para a Rádio. Entra por onde saíste mas desta vez pelo portão que já foi identificado e aberto. Estás a ver um Alferes à tua frente, forte, gordo ou coisa assim despindo a farda? Respondi que sim.
-- Essa é a farda que vais usar. A partir de agora vais agir de disfarçado de Oficial do Exército e comandar as duas companhias de paraquedistas.
-- Meu coronel, como é que um alferes vai comandar companhias comandadas por Capitães?
-- Como te disse, essa é a minha parte da  Operação, e já está solucionada. És tu quem vai comandar e eles já sabem da missão ao detalhe. Boa sorte. Traz-me resultados, acaba com essa desordem.
Na falta de gás lacrimogéneo e outros equipamentos adequados ao momento, ordenei que usasse granadas ofensivas, para uma acção alargada de dissuassão e de efeito psicológico. Dei igualmente instruções para usarem em caso de necessidade extrema, coronhadas leves e sobretudo a quem impedisse a marcha das duas Companhias rumo à Rádio Clube para o cumprimento daquela importante e decisiva missão, Uma das Companhias avançou pela frente da Rádio e a outra pelas traseiras, exactamente pelo lado que usei para me escapulir na primeira etapa da Operação.
Na cabine da Rádio, lancei a Senha de novo:
ATENÇÃO, ATENÇÃO. GALO, GALO, GALO AMANHECEU. Em nome do MFA e da FRELIMO. Peço a todos os camaradas que se dirijam com a maior calma possível para todos os pontos da cidade, a fim de controlarem as massas que se dirigem para o centro da cidade. GALO, GALO, AMANHECEU, GALO, GALO, GALO AMANHECEU. Peço a todos os camaradas que estejam à escuta da emissora RCM, mas todos sem excepção que se dirijam às áreas onde se sabe haver violência a fim de procurar dominá-la, seguindo à risca o programa de paz e amizade tão proclamado pelo Presidente António de Spínola e Samora Machel. GALO, GALO, GALO AMANHECEU. Pede-se que  toda a população colabore, sem qualquer hesitação, com as Forças Armadas e Policiais, na garantia da segurança das pessoas e haveres. Só de um esforço conjunto poderá resultar a verdadeira paz para todo o povo de Moçambique. Atenção camaradas, GALO, GALO, GALO AMANHECEU. Foi esta a senha combinada com todos os camaradas. Dêem a vossa ajuda. Viva o Presidente Samora Machel.
Nessa altura ocorreu-me que as populações podiam ter parado de avançar, mas se deixassem de ouvir as nossas vozes voltariam de novo às ruas. Depois do meu discurso de apaziguamento, passei a chamar os locutores da Rádio, sobretudo os da emissora Hora Nativa para assumirem a Rádio que estava em completa desordem.


Gulamo Khan
Chamei Gulamo Kham que veio de imediato. Ele foi o primeiro a chegar, Eu disse-lhe para tomar conta dos escudos humanos que ainda estavam na Rádio, como crianças, mulheres e velhos e assegurasse o reencontro das famílias. A Rádio Clube ainda estava cheia de gente perdida, filhos que não encontravam os pais e vice-versa. depois chegou o Samuel Dabula a quem dei a responsabilidade de repor os serviços da Hora Nativa e gradualmente, Jonas Chachuaio e outros locutores foram chegando para assumir um papel de restabelecimento da RCM a favor da causa justa.
Perto da meia noite já tinha as equipas minimamente necessárias para  assegurar os serviços numa casa que já conheciam há décadas e com o orgulho de servir uma causa de mérito.
Lá pela madrugada chegou o Coronel Melo Egídio. Abraçámos-nos com o sentimento do dever cumprido. Para minha felicidade o Coronel, contou todos os detalhes da Operação ao Major Glória Belchior, Comandante do Batalhão de comandos de Moçambique e Comandante de Instrução da 5ª Companhia de Comandos, a minha Companhia. Uma vez cumprida a minha missão e apresentada a Comissão Mista que iria dirigir a RCM, já sob controle absoluto, pedi que me dispensassem e me cedessem um transporte que me levasse à Base Galo, na minha querida Mafalala, depois de quase 15 horas ausência. Quando já estava dentro da viatura Toyota, azul, da PSP, recebi uma chamada via rádio: Daqui o BRAVO! E eu respondi: Esse é o meu Comandante. E o Major Belchior respondeu que sim..
O Coronel Melo Egídio contou-me tudo ao mais pequeno detalhe:  Eu já desconfiava! Eu já desconfiava! Mas é uma felicidade que tu não podes imaginar, saber que tu foste capaz de ter este discernimento e essa coragem, pah! Senti que ele me falava do fundo do coração, E disse-me mais uma coisa: "Diz à tua gente que o que for preciso nós vamos ajudar a formar, ajudar e organizar. Nós existimos para isso. Eu já estou a partir para o aeroporto, esta madrugada, estou a partir para não sei onde. Já nos voltaremos a ver. Mas parabéns pelo sucesso. Eu estou orgulhoso.


Coronel Nuno Melo Egídio

Quando cheguei à Base Galo a senha já tinha sido mudada e falei logo com os meus botões: O Betinho Chissano já me barrou a passagem com uma nova senha.

-- Sou o Galo.
-- Galo aqui? Senha já ou retire-se, ou abrimos fogo.
-- Sou o Comandante Galo e estou disfarçado de Oficial do Exército. Cumpri a minha missão, agora estou de volta. Aproximem a lanterna e confirmem.
-- É ele, é o camarada LeBon. Podem abrir o caminho, mas só entra ele.
-- Lebon o camarada Betinhomudou a senha de uma em uma hora porque fomos fortemente atacados depois do sucesso da Operação Galo, Galo Amanheceu. Agora a senha é laranja e a contra-senha é mecânica. E daqui a pouco a senha vai mudar.
Quando entrei na heróica família Galiano da Silva , a Base Galo iniciou uma mega festa de homenagem à Operação Galo, Galo Amanheceu, entre sorrisos, choros e abraços. Foi uma festa merecida em homenagem a uma missão histórica cumprida pela defesa dos Acordos de Lusaka e pela independência de Moçambique.

A Chegada dos Comandantes Alberto Chipande e Bonifácio Gruveta, Enviados de Samora Machel

12 de Setembro de 1974. Logo pela manhã desse belo dia eu estava nos já habituais encontros do dia com o Coronel Melo Egídio e sempre com a preocupação de manter a cidade de Lourenço Marques tranquila e equilibrada. Sobretudo na garantia de que as lojas não continuassem a ser saqueadas e o reforço do patrulhamento pela cidade por Unidades de Comandos no activo, onde o nossa camarada Furriel Joel Libombo assumiu a liderança de uma patrulha que incluía os bairros mais populosos e susceptíveis a distúrbios .
-- Meu caro LeBon, o que diz a sua segurança e as suas fontes de informação sobre quem chega hoje a Lourenço Marques?
-- Meu Coronel, se tem boas informações avance porque do meu lado não tenho nada de novo.
-- Hoje chegam a Lourenço Marques e de helicópteros até aqui ao CTS, por razões de segurança, os Comandantes Alberto Chipande e Bonifácio Gruveta, e gostaria que toda a equipa que dirigiu a OPERAÇÃO GALO, sobretudo o Comandante Galo, estivesse aqui para um importante encontro com eles.
General Alberto Joaquim Chipande
Ao princípio da tarde um helicóptero Alowette aterrou nas imediações do CTS trazeno esta importante delegação enviada por Samora Machel para acompanhar de perto o processo da OPERAÇÃO GALO, e prestar todo o apoio para que não houvesse qualquer revés. assegurar um plano de avanço das forças de combate da FRELIMO a Lourenço Marques para apoiar uma transição segura e de forma ordeira.
Toda a nossa equipa, o núcleo duro da Base Galo, fez-se presente sob o comando de Amaral Matos. Eu era o único homem fardado e armado na recpção desta importante delegação. O comandante Chipande depois de recebido por todas as partes perguntou quem era o homem armado que os acompanhava. O Amaral Matos respondeu:
-- Esse homem armado é o Comandante galo.
-- Parabéns, camarada Amaral. Ele terá de participar na reunião, só entre nós. Trago instruções do Presidente Samora Machel.
Por instruções do Comandante Chipande entrámos para uma sala cedida pelo Comandante do CTS. O Comandante Chipande começou imediatamente a falar:
-- Camaradas o Presidente Samora Machel enviou-nos a Lourenço Marques depois do sucesso da OPERAÇÃO GALO, GALO AMANHECEU. O Presidente Samora Machel entendeu logo o alcance dessa operação e considerou de  imediato que deveria seguir uma missão com o objectivo de cortar a hipótese dos colonos se reerguerem com o apoio de outras forças da região, e assegurar que as nossas forças se aproximassem de imediato de Lourenço Marques para estabelecer uma ponte rump à independência.
-- Muito obrigado, Camarada Comandante Chipande -- interviu o camarada Amaral Matos -- nós cumprimos esta importante e estratégica missão, mas estamos exaustos por falta de meios que assegurem a gestão da população que a partir deste momento começa a ter múltiplos interesses e nós não temos capacidade para garantir o controle. Os agentes da PIDE/DGS, ainda com alguma capacidade de movimentação, trabalham com as reminiscências do Movimento Moçambique Livre e os Dragões da Morte. Os grupos estão em debandada mas outras forças pretendem aproveitar esta ausência de forças militares e policiais presentes no terreno e provocam acções de banditismo e crime nos bairros. Os assaltos alojas e armazéns, a falta de abastecimento para as populações, a desorganização dos mercados, a falta de transporte por insegurança, os combustíveis que começam a escassear e muitas outras faltas que se vão multiplicando por ausência de ordem começam a ser um  conjunto de problemas novos que vão criar um forte e negativo descontentamento. É urgente a presença de forças militares que assegurem o patrulhamento rigoroso da cidade, Camarada Comandante Chipande, somos de opinião que deveriam regressar hoje para que as primeiras forças cheguem a Lourenço Marques urgentemente.
O Comandante Chipande, respondeu:
-- Camarada Amaral, não podemos avançar sem termos um plano global e seguro. A movimentação de forças requer um plano logístico adequado ao momento em que vivemos. Vamos dar pelo menos uma semana para que não falhemos na operação das forças mais próximas de Lourenço Marques, temos de fazer uma avaliação rigorosa e não podemos falhar.
Aproveitei a deixa e intervim:
-- Comandantes Chipande e Gruveta, a situação é  explosiva. A sensação que eu tenho é que a qualquer momento vamos sofrer um golpe quando se aperceberem de que há aqui uma falha de transição ou espaço para manobras. Embora saibamos onde se encontram escondidas as armas dos colonos pelo manancial de informação que temos do Sector de comunicação e Informação do Betinho Chissano, não temos capacidade de anular ou capturar esse material. Os colonos em debandada aida movimentam forças muito difíceis de controlar. Os interesses começam a multiplicar-se e há muito dinheiro em jogo. As nossas capacidades de controle destes novos fenómenos vão-se desmoronando gradualmente.
O Comandante Chipande respondeu de imediato: 
-- Camarada Galo, sinceramente, nós aguentámos 10 anos e vocês não conseguem aguentar mais dez dias? A movimentação de forças militares exie muito mais que imagina. Não podemos arriscar para não cair em armadilhas que, de certeza, em circunstâncias como esta podem acontecer.



General Bonifácio Gruveta
O Comandante Bonifácio Gruveta que desde o início se havia mantido calado a escutar o diálogo, entrou no assunto mobilizando o Comandante Chipande e o Comandante do voo a ver a possibilidade de se viajar  na mesma noite, considerando que Lourenço Marques e Nampula tnham condições mínimas para a descolagem e aterragem nocturna.
-- Meu Comandante, com sua permissão. Se pudéssemos ganhar este dia poderíamos ainda esta noite estabelecer um plano para o envio de forças para Lourenço Marques -- disse o camarada Gruveta. -- Ganharíamos assim alguns dias  e os camaradas aqui poderiam reforçar as suas atenções para mais cinco ou seis dias até à chegada dos primeiros soldados da FRELIMO, sobretudo para que uma presença nossa assegurasse a necessária disciplina no dia-a-dia da população.
-- Comandante Branco, o  que diz. Podemos descolar em segurança? -- Reagiu o Comandante Chipande.
-- Concerteza. Podemos avançar imediatamente e Nampula tem boas condições de aterragem. De Lourenço Marques ainda é dia e asseguramos uma boa descolagem.
Para nossa total alegria, o Comandante Chipande aceitou e disse:
-- Muito bem, vamos avançar. Vamos levar connosco o amplo relatório do Sector de Informação e Comunicação que o camarada Betinho Chissano organizou, que indica onde estão as armas dos colonos.Mas fia aqui uma orientação . Preparem-se para trabalhar arduamente com as forças que irão chegar brevemente para que as operações de captura das armas tenham sucesso, o que significa o redobrar da vossa missão. A vossa colaboração vai ser decisiva para o sucesso do enquadramento das forças da FRELIMO no terreno.
Tropas da Frelimo a desembarcar em Lourenço Marques
E depois finalizou: 
-- Em nome do Presidente Samora Machel, quero dar os parabéns pelo sucesso da operação OPERAÇÃO GALO, GALO AMANHECEU que teve um grande impacto na frente de combate. A nossa missão aqui será coroada de sucesso, porque encontrámos um grupo forte, coeso e abnegado, pronto assumir missões pela defesa da pátria. O Presidente Samora Machel insistiu que a nossa missão em Lourenço Marques seria a de transmitir ao vosso grupo a garantia de que a FRELIMO está connvosco , para o  que der e vier pela Independência total e completa. 
Partimos com o sentimento de missão cumprida. Vamos transmitir ao Camarada Presidente este ambiente de firmeza e bom trabalho. Em breve estaremos e os nossos combatentes vão assegurar o bem estar do nosso povo.
Desejamos aos Comandantes uma boa viagem e  um breve regresso. Dez dias depois  recebemos as primeiras forças da FRELIMO, que foram muito importantes nas manobras do sangrento dia 21 de Outubro ( que envolveu uma Companhia de Comandos e tropas residuais ainda sensíveis ao movimento dos colonos ), para que a situação não fosse ainda pior. A larga operação de captura de armas foi de grande amplitude. A recolha de armas abrangeu toda a zona Sul. Na cidade levantámos armas dos prédios, em empresas, armazéns e farmas. Essa campanha foi decisiva para evitar o que se previa como provável aparecimento de acções de banditismo generalizado que pusessem em causa o processo do Governo de Transição rumo à Independência.



                                                    FIM

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