Honra e Gloria aos que tão novos lá deixaram a vida. Foram pela C.C. S.-Manuel Domingos Silva!C.Caç. -1558- - Antonio Almeida Fernandes- Alberto Freitas - Higino Vieira Cunha-José Vieira Martins - Manuel António Segundo Leão-C.Caç-1559-Antonio Conceição Alves (Cartaxo) -C.Caç-1560-Manuel A. Oliveira Marques- Fernando Silva Fernandes-José Paiva Simões-Carlos Alberto Silva Morais- Luis Antonio A. Ambar!
R. T. P INFORMAÇÃO....R.T.P 2....R.T.P.MEMÓRIA....SPORT TV....SPORTING TV

segunda-feira, 20 de março de 2017

INHAMINGA O ÚLTIMO MASSACRE ( NOTÍCIAS DO MASSACRE)

NOTÍCIAS DO MASSACRE


No dia 9 de Fevereiro de 1974, um sábado. O responsável pela Fábrica de Cimento de Nova Maceira, no Dondo, chega a Muanza, sul de Inhaminga. Acompanhado de um agente da PIDE/DGS, o engenheiro Góis vem visitar a pedreira de calcário que abastece aquela unidade industrial. Desloca-se às ordens do patrão, António Chapalimaud, que pretende saber O que se passa neste lugar periférico da Gorongosa.
Na frente da pedreira, o director da Cimenteira depara-se com um cenário montado pelo seu gerente em Muanza, um branco de nome Jacinto. Doze corpos de nativos, passados pelas armas, jazem espotejados por terra De forma a que todos vejam o que acontece a quem apoiar os terroristas.
Jacinto orienta, no local, uma força de matança em série constituída por elementos da Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil de Moçambique -- OPVDCM, acolitados por efectivos da 2ª Companhia do Batalhão de Artilharia 6221, incumbida de montar segurança à pedreira.
O engenheiro confere, num ápice, a informação que desliza pela cidade da Beira há já algum tempo e chegou agora de forma mais consistente aos ouvidos no Dondo, Centenas e centenas de homens´arrebanhados em inúmeras aldeias de Manica, da Zambéziae, sobretudo, de Sofala, estão a ser sumariamente executados em Muanza.
O proprietário da serração em Cheringoma mais próxima de Muanza está presente nesta visita ao complexo da pedreira. O seu nome é José Mendonça Teixeira e pede para falar. Garante ao administrador vindo de Nova Maceira que Este sistema de limpeza já vigora há uns meses e é o mais eficaz para acabar com a guerra. Acrescenta que AS valas, lá atrás, já têm à volta de uns três mil turras, Um número redondo que o colaborador de Chapalimaud já trazia na cabeça.
O madeireiro Teixeira, o subchefe da OPVDC, o furriel do Destacamento, PIDE da Lusalite e o gerente Jacinto olham fixamente o rnviado da Fábrica. Sem pestanejar. Permanecem assim até o silêncio se esfumar com a ruidosa chegada, lá trás, de mais um camião carregado de pretos. 

 O ACELERAR DA GUERRA

No distrito de Tete, quando se atingiu o mês de Agosto de 1973, a FRELIMO tinha conseguido saltar para a margem direita do Zambeze, superando um obstáculo formidável: a barragem de Cabora Bassa e a sua albufeira. avançou para sul e entrou em Manica. E no início de 1974 encontrava-se às portas de Vila Pery. Para leste, descendo do Niassa, a guerrilha completava o efeito de tenaz com a travessia da extensa Zambézia, reforçando de forma expressiva a sua acção em Sofala. Objectivo: Beira.
Em Inhaminga, o primeiro relatório da tropa portuguesa referindo um ataque directo ao exército colonial data do último dia de Julho, cinco meses antes. No cruzamento Mazamba--Goronga, a 40 Kms da vila, foram registados dois feridos numa emboscada. A resposta foi desproporcionada, para o que concorreu o trabalho complementar da PIDE/DGS.
Os soldados portugueses invadiram aldeias, arrasaram e incendiaram todas as palhotas. Os pides seleccionaram adultos para serem torturados, na mira de obter informações. O chefe tribal foi barbaramente espancado na situação de pendurado de uma árvore pelos pés. No final do suplício levaram o idoso, ainda vivo, para uma prisão na Beira. A população -- velhos, mulheres e as suas criaças -- fugiu aterrorizada. Os novos alistaram-se na FRELIMO, como aconteceu, entre outos lugares, em Nhansole com catorze rapazes.


Padre André Van Kampen
A distribuição estratégica dos grupos de guerrilha em Sofala tornou-se perceptível nos dois ataques seguintes, a 16 e 17 de Agosto. Em menos de 24 horas, duas Berliet do Exército foram alvejadas em Massanza, resultando feridos, com gravidade, três soldados portugueses. Um Jipe, lotado com agentes da PIDE/DGS, foi baleado 7 Km para sul de Muanza. De Muanza a Massanza distam cerca de 100 KM.
No rescaldo do primeiro ataque sofrido, a tropa colonial atingiu mortalmente uma moleira que, no momento, assomava à picada com um filho ao colo. Que também morreu. Os militares assaltaram também a escola da Missão  prendendo a turma inteira. O professor Carlito Chapo e os seus alunos foram levados para o quartel de Inhaminga onde, no dia seguinte, sofreram sevícias pelos mesmos agentes da PIDE/DGS que sobreviveram ao ataque ao ataque da guerrilha em Muanza.
Na terça-feira dia 21, ainda nesse mês de Agosto , o presidente da Câmara de Inhaminga deslocou-se à Missão e intimou o assistente religioso Jan Tielemans para ser interrogado, De hoje a oito dias, na delegação da PIDE/DGS na Beira. Este missionário, que nos últimos anos drsenvolvera com sucesso um projecto agrícola no Lundo, foi acusado de possuir documentos sobre os acontecimentos de Wiriamu em Tete

DA TORTURA AO NAPALM

Até final do ano, Inhaminga viveu horrorizado o clima angustiante da guerra suja que alastrou, de fora progressiva, a esta região. Penosamente, o Comando-Chefe tentava transplantar a experiência de Nangade --símbolo da empresa dos aldeamentos no Rovuma -- para a Zona Operacional de Tete --ZOT, e para o Comando Territorial do Centro -- CTC. O plano consistia em criar uma barreira intransponível ao terrorismo no seu caminho para Sul. Mas os guerrilheiros  já se encontravam a percorrer, sem dificuldade, esses mesmos caminhos disputando as mesmas populações.
Nas margens do rio Bawa, em Thombo, um administrador de Posto mais inflamado antecipou-se ao programa de concentração das populações e proclamou a criação pessoal de um aldeamento em pleno coração da tribo Suere. De novo, os jovens partiram para o mato, e os mais velhos recusaram ser aldeados. A reacção da FRELIMO veio a seguir, através da destruição das viaturas da tropa que patrulhavam a construção desse aldeamento privado.
Sem aviso prévio, a companhia de caminhos-de-ferro Trans-Zambezia Railwais --TZR despediu em Novembro a maior parte dos trabalhadores das bombas de água e outro pessoal que operava ao longo da Linha de Inhaminga. Os poucos que não foram mandados embora, a TZR despachou-os, igualmente sem qualquer explicação, para instalações de que esta multinacional dispunha no Corredor a Beira, muito longe das suas habitações. Foram substituídos por soldados rodesianos que ocuparam nas bombas de água de Mazamba, a 25 Km dee Inhaminga, Nhamatope, mais para norte, e Muanza, a sul. O medo cresceu nos funcionários da TZR deslocolizados.
Em Novembro de 1973, o Quartel - General em Nampula ordenou ao batalhão estacionado em Inhaminga um novo plano de acção que devia passar ao terreno de imediato. E a Companhia de Comando e Serviço, CCS, do BART 6221 deu início ao reconhecimento  ofensivo  e destruição de palhotas traçado na mesma ordem superior. A devastação começou em Nhantaze, perto do rio Timo
 da buine, 30 Km para o interior da Doronza, a ocidente de Muanza.
Ao mesmo tempo, a PIDE/DGS decidiu reforçar a sua rede de agentes e operações em Inhaminga. Os seus informadores deslocam-se constantemente às aldeias onde, palhota em palhotas, lêem avisos escritos em língua Sena onde se acusam os camponeses de fornecer alimentos aos terrorista. No final de cada incursão no mato, com o apoio da tropa, os pides regressavam sempre a Inhaminga com várias famílias detidas, para interrogatório e martírio.
Em Dezembro, a força aérea da Rodésia -- Special Air Service - estendeu os bombardeamentos, incluindo o napalm. à faixa que vem de Tete até Inhaminga, abrangendo a parte norte da Gorongosa. Os ataques dos dia 22, 24, 26 e 29 destacaram-se pela grande intensidade de fogo. No dia seguinte ao Natal, a coluna da 1ª Companhia do BART 6221, em missão de reabastecimento a Sena, accionou uma mina que destruiu uma Berliet à cabeça e deixou cinco dos seus homens moribundos.

A GUERRILHA ATINGE A BEIRA

Primeiros instantes de 1974,. O Comandante - Chefe das Forças Armadas de Moçambique, General Tomás Bastos Machado, festeja, discretamente, no aquartelamento do Fingoé, a passagem o ano.
As comunicações são péssimas, mas o oficial de quatro estrelas está rodeado de tropas especiais que lhe garantem, ao som do conjunto <<Os Unimogs do Ritmo >>, que toca no refeitório, celebrar em segurança a entrada de mais um ano de guerra em Moçambique.
No momento de erguer as improvisadas taças de plástico com cerveja morna, Tete profundo, a FRELIMO lançava o fogo de artifício  na linha para Inhaminga.



Estas locomotivas foram atacadas pela Frelimo
Uma série de explosões fez descarrilar comboios em Inharuca, e entre Machipanda e Beira. O número de feridos desta obriga a arrancar de Manica uma composição de socorro, que outro ataque do Inimigo também imobiliza, rapidamente. A oito Kms daqui, potentes rebentamentos projectaram pelo ar duas chaimites o exército. O dia de Ano Novo não acaba sem a destruição das bombas de água onde, em Novembro, a TZR tinha substituído guardas moçambicanos por rodesianos.
Na cidade da Beira há já guerrilheiros -- alguns armados -- que se passeiam pelas ruas principais, jantam nos restaurantes do cais, vão ao cinema no Scala ou no Olypia. Na manhã seguinte, os representantes da TZR sobrevoam de avioneta as bombas de água destruídas. Cantante Pinho, engenheiro-chefe da companhia, Elídio Tavares, director, e José Augusto Barros, administrador, declaram as bombas irreparáveis.
A PIDE/DGS abre novas instalações em Inhaminga, inauguradas com a detenção do Superior da Missão Católica, padre holandês Josep Martens, para efeitos de interrogatório.
É ano velho em Inhaminga.